15 de novembro de 2017

Todo celíaco é chato?!

Eu teria me sentido ofendida se a pergunta tivesse sido feita por outra pessoa. Por sorte, eu mesma fiz o questionamento depois de soltar mais uma das minhas chatices. Pedi que todos lavassem a mão depois de comerem o amendoim que tinha glúten. Rimos do meu aparente exagero, mas apesar do tom de brincadeira não desgrudei os olhos de cada um que estava à mesa. Afinal, iríamos dividir o peixe frito, preparado com todo esmero sob o meu rigoroso controle de qualidade. Servir um único item proibido para nós celíacos é capaz de tirar o sossego que nós nunca temos.

Em outras ocasiões, fui ainda mais chata. Já questionei, pedi embalagem, recusei, fiquei sem comer, revirei o lixo, pedi distância, “por favor, se for consumir esse sanduíche se importaria de se sentar mais pra lá?” e até gritei quando inocentemente um prato com glúten era transportado perto do meu sem glúten. Um mísero farelo de pão a quilômetros de mim pode me fazer surtar. Como sou chata! Será que todos são assim, me pego pensando quando lembro a reação de cada um diante das minhas exigências.

Ross Geller

É exaustivo conviver com a gente? Haja paciência para tudo isso? Como vocês conseguem? Se você acha que estou aqui para pedir desculpas e agradecer por terem aturado tamanha chatice, na ni na não!

Se evitar riscos e exigir que nos garantam a segurança necessária para nossa sobrevivência é ser chato, nós celíacos não só somos como deveríamos ser muito chatos. Pelo bem da nossa saúde, continuaremos sendo os exagerados, os frescos e o que mais quiserem dizer que somos.

Dwight Schrute - The Office

Na verdade, chato é quem insiste em nos colocar nessas situações e depois reclama da nossa postura. Chato é ter que viver em um mundo que ainda não respeita, aceita e atende pessoas com restrição alimentar. Chato é ingerir glúten por engano. Chato é não poder comer nada e assistir, de camarote, vocês devorando delícias que até ontem nós podíamos comer.

The Office

Chato é ter que se explicar o tempo todo e mesmo depois de dicursar sobre as consequências da ingestão do glúten continuar não sendo respeitada, aceita e atendida. Chato é ser tratada como um número, afinal, apenas 1% da população tem a sua doença, então não podemos nos dar a esse trabalho todo. Chato é ter a doença celíaca, eu sei, mas já que não tem jeito, que sejamos chatos nós também.

 

Na dúvida de como ilustrar o post, perguntei nas redes sociais: que personagem de série é chato pra você?! Ross (Friends), Dwight (The Office), Rory (Gilmore Girls), Piper Chapman (Orange is The New Black), Skyler (Breaking Bad)… foram muitos nomes. Concorda ou acrescentaria algum?!

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30 de outubro de 2017

Ansiedade tem cura?

Comemoro os meses sem a medicação como um time que conquista o primeiro lugar de um campeonato insignificante. Não há do que se orgulhar tanto assim… Tudo continua uma zona aqui dentro. Yoga, meditação, exercício físico, alimentação balanceada, leituras espiritualistas, auto-conhecimento. Já decoramos a receita para a cura da ansiedade, mas ainda não nos perguntamos se ela, afinal, tem cura.

Cura Ansiedade

Mudei completamente a minha rotina, o meu rumo profissional, a forma como encaro os problemas e continuo com o mesmo aperto dilacerante no peito, com a mesma dificuldade para dormir bem – comigo o problema não é adormecer, mas ter um sono tranquilo ou menos tuburlento, que seja – e as mesmas incertezas corroendo os meus pensamentos.

Se antes sofria com a rotina maçante e a correria do trabalho de carteira assinada, hoje peno com os desafios de empreender; e não são poucos. Se antes perseguia obstinada um único plano, hoje me perco diante das muitas possibilidades que se apresentam para mim. Se antes amargava em silêncio as dores desse embaraçoso diagnóstico, hoje compartilho abertamente os meus dilemas sem que isso me torne mais resistente a eles.

O problema, definitivamente, não está na minha vida ou então as coisas teriam mudado da água pro vinho nos últimos tempos. 

Será que o problema sou eu, pergunto diante do espelho, tentando reproduzir alguma cena que pareço ter visto em algum clipe. Falta a música, a chuva lá fora e a certeza de que após o choro descontrolado o final será feliz. Não, o problema não está em mim.

Me recuso a fazer da ansiedade algo inerente ao meu ser. Somos coisas distintas, embora tantas vezes indissociáveis.

Tampouco espero inocentemente pelo final feliz. Já superei essa fase, mas também não consigo sentir plenamente a felicidade que precede o destino final. Quando se tem ansiedade, não é nada fácil aproveitar a jornada como nos mandam fazer, embalados por uma música relaxante e slides com céus e jardins em powerpoints cafonas.

Colagem Paste in Place

Paste in Place: mais uma série de colagens que descobri no Pinterest

Nossa complexidade não pode ser compreendida por nenhum coach do momento. A nossa dor nem sempre será amenizada por um receiturário, seja ele tarja vermelha ou preta. O silêncio contemplativo nos ajuda a compreendê-la, mas nenhuma técnica milenar é capaz de nos transformar em seres plenamente equilibrados.

Entre o mundo lá fora e o mundo aqui dentro há um abismo de contradições. Desejos, planos desfeitos, anseios, ilusões e desilusões, medos, crenças; camadas que não se desfazem de uma hora para outra e só se tornam mais entranhadas com o tempo.

Se a ansiedade tem cura, não sei. Acho provável que não. Como sei que conseguirei conviver com ela? Clarice Lispector, em Água viva, parece responder por mim. “Embora seja tudo tão frágil. Sinto-me tão perdida. Vivo de um segredo que se irradia em raios luminosos que me ofuscariam se eu não os cobrisse com um manto pesado de falsas certezas”.

 

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