9 de novembro de 2016

A alegria dos garis

LailaHallack Crônica

A rua estava imunda, cheia de embalagens vazias, papéis e plásticos. Os legumes, as frutas e as verduras estavam espalhados por todo lado. O sol de meio dia rachava a ponto de cozinhar os restos de alimentos deixados ali.

Da extremidade oposta da calçada, uma delas gritava para a outra. Conversavam aos berros sem se importarem com a distância que as separavam ou com as pessoas que passavam. Além das duas, havia outros oito.

Apesar da gritaria e da música que tocava estridente no celular de um deles, dava para ouvir o chiar das vassouras esfregando no asfalto, num vai e vem ritmado. A força empregada fazia a sujeira ficar suspensa no ar para em seguida pousar nos montes de lixo acumulado.

Enquanto eu os observava, num piscar de olhos, rapidamente, estava tudo recolhido. Vazio. Limpo e quieto, como se nada tivesse acontecido. Como se não estivessem nem estado ali.

Cessada aquela agitação toda, lembrei da minha infância. Das vozes que ouvia de dentro de casa, avisando que era a hora deles passarem. Da farra que faziam no Natal quando ganhavam os mesmos presentes do ano anterior. Eu corria pra porta atrás da minha mãe que, religiosamente, dava uma garrafa de vinho e uma caixa de bombom, só para vê-los saltarem das caçambas com as rodas ainda em movimento. A cena me impressionava.

Lembrei daquele gari famoso que sempre aparece na TV durante os desfiles de carnaval do Rio de Janeiro. Embora seu nome fugisse da cabeça, sabia que tinha um sorriso largo, contagiante. Sorriso! Acho que é chamado assim. Como pude me esquecer.

Lembrei do incômodo que sentimos toda vez que passam por nós no trânsito. Fechamos a janela sem nem disfarçar a nossa repulsa. Por poucos segundos, não aguentamos conviver com o fedor que sai do lixo que nós mesmos produzimos. Eles acabam se acostumando e parecem nem sentir o cheiro forte.

Pensei em como deixamos as dores da vida nos tomar, tirando a leveza necessária para a nossa sobrevivência e como poderíamos aprender com a alegria dos garis, daqueles garis…

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  1. Laura

    Belo texto. Grande reflexão.

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