17 de março de 2017

Clipe Basta! – Uiara Leigo

Ao assistir ao clipe Basta, da cantora Uiara Leigo, somos hipnotizados pelo seu olhar. Os olhos claros, transparentes como ela, quase revelam os seus segredos. Expressam dor, inquietação e ternura. Despidos, reluzem cristalinos a sua verdade. A música, com letra e melodia que também nos capturam, apenas traduz o que está evidenciado na fisionomia da artista.

O cenário minimalista, uma aposta inevitável para uma produção com baixo orçamento, valoriza o semblante da cantora, mas não se detém a ele. No clipe, a mensagem sentida por Uiara quando compôs a canção de forma livre e espontânea, no que chama de um “rompante de criação”, é compartilhada por outras pessoas. “A música fala sobre ser guiado pelo caminho dos outros e não por suas próprias escolhas e vontades”, conta.  A composição que nos lembra que “é preciso viver o que se é” ganha mais vozes numa obra-prima forte e honesta.

Com a missão de abrir os corações, a cantora generosamente abre o seu e convida personagens reais a fazerem o mesmo. Com direção da estreante Cris Magalhães, o clipe é inspirado no projeto Giz do fotógrafo Rafael Aguiar, que também assina a direção de fotografia. No projeto original, modelos nus trazem para um grande quadro negro o que carregam dentro de si.

Basta - Uiara Leigo - Laila Hallack

Para adaptar ao clipe, além do uso do figurino, foi necessário direcionar o que seria desenhado ou escrito de acordo com o conceito da música, sem que isso tirasse a espontaneidade do convidados. “Um dos cuidados que tomei ao dirigir as pessoas foi o de dar liberdade criativa para o que seria colocado ali. Minha orientação se deteve ao espaço e aos movimentos, mas as mensagens são totalmente verdadeiras“, explica a diretora.

A estética do clipe também expressa o Basta!. “A intolerância e o preconceito não são coloridos, procurei reduzir a cor ao máximo, mas ainda destacar os olhos da Uiara e o vermelho que aparece algumas vezes pela simbologia. É como um recado: estamos de olho no que vocês nos provocam!”, ilustra Rafael Aguiar.

Assim como nós, que somos tocados por cada aparição no clipe, durante as gravações a cantora também se comoveu com os convidados. Nos bastidores, diz ter vivido momentos únicos e sentido uma emoção arrebatadora.

“Ver a Lorraine desenhar um estereótipo de mulher e mostrar que não devemos seguir padrões, desenhando uma cabeça com cabelos de flor, foi sensacional! Lucas, que retorna como LU CY, escrevendo todas as agressões verbais que escuta no dia a dia, me fez chorar muito… Rita, de uma forma muito simples e forte, trouxe para mim o conhecimento sobre a invisibilidade que criamos para os deficientes físicos. Larissa Andrioli, com sua coragem, expôs sobre a cultura do corpo e a gordofobia, que marcam negativamente a vida de milhares de pessoas. Janaína traz, com sua feminilidade e dança, a valorização do corpo da mulher, através do projeto “Meu corpo, meu sangue”. Juliana lindamente trouxe a força da mulher negra, defendendo nossas raízes ancestrais, cultura que é marginalizada há séculos por homens que acham que só existe uma verdade no mundo. Vinícius, o menino homem mais fofo do clipe, mostra que as diferenças têm que existir porque somos mais que especiais! E com João Vitor, em sua borboleta negra, expressando o que é ser negro em nossa sociedade, fui às lagrimas na hora em que ele desenhou aquele cifrão na camisa!”.

Olho no olho

UIARA LEIGO

Tamanha entrega resulta em um dos raros clipes que nos arrepiam a cada cena. Se pudéssemos assisti-lo em silêncio, talvez ainda escutaríamos o grito guardado no peito de quem convive com as mais violentas formas de opressão. Não que a canção se faça desnecessária – dela nasceu o Basta e todos os seus desdobramentos: a cantora tem ainda um projeto em que leva manifestações artísticas para os espaços públicos numa mobilização pelo fim da intolerância.

O clipe apenas destaca o que os admiradores do trabalho da artista já sabiam. Uiara canta com os olhos, com as mãos e com a alma. Ao fitarem diretamente para a câmera, os participantes também nos alcançam com o olhar. Como nunca, música e imagem ultrapassam a linguagem técnica – executada com altíssima qualidade – para trazer, contra aqueles que se opõem à diversidade humana, um imperativo urgente: Basta!

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  1. Cacáudio

    Lindo texto e a forma sensível que captou clipe e canção. Parabéns, Laila.

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