20 de fevereiro de 2017

Como conscientizar minha família sobre a condição celíaca?

Pulp Fiction Scene

Sempre que vou a um restaurante e me arrisco a pedir algo sem glúten (coisa que tem sido cada vez mais rara por conta das infelizes experiências anteriores), alugo o garçom e faço centenas de perguntas. Desconfiada como toda celíaca, nem sempre as respostas me convencem. Só consigo ter “certeza” de que posso comer quando digo: “Se tiver glúten, eu morro, tá?”. Juro! Eu jogo essa. Querendo ou não é o que acontece com um celíaco que não se trata, mas exagero e faço um drama para que o atendimento seja o mais seguro possível. “Começo a passar muito mal mesmo”, dou enfâse, demonstrando minhas habilidades na arte da interpretação

drama

And the Oscar goes to…

As pessoas que me acompanham riem e o garçom, quase sempre, se espanta e promete ter muito cuidado. Nem assim as coisas funcionam. Quase sempre rola uma contaminação e aí eu me culpo por ter sido ingênua em pensar que seria diferente. A solução: não comer fora. Nunca mais!

Mas ainda que deixemos de frequentar lugares não aptos para celíacos, o problema pode estar bem mais perto do que imaginamos. No trabalho, na faculdade, na escola ou pior: dentro de casa.

Como convencer as pessoas não celíacas que moram com você a fazer uma dieta sem glúten?

O ideal é que o glúten passe longe de onde moramos, mas pelos relatos de outros celíacos e minha própria realidade, isso parece impossível. Conseguir que não nos considerem frescos é uma grande vitória, agora pedir que não comam o que querem comer… é bem mais delicado.

Joey te entendo

Moro com os meus pais. Meu pai é de família síria. Come pão no café, no almoço, no jantar… O pão é praticamente uma extensão dele. É utilizado até como talher! Sabe quando a gente limpa o prato com o pão? Bateu até aquela saudade de quando eu fazia isso. Ele tem 70 anos e apesar de suas centenas qualidades é um tanto quanto resistente. Meu namorado – pode um dia vir a se tornar marido, quem sabe (olha a indireta aí, minha gente)- ama uma cervejinha.

Como falar para que abandonem os seus hábitos por nós? Nós faríamos o mesmo se estivéssemos no lugar deles?

É questão de sobrevivência, claro. É pelo nosso bem-estar e nada mais. Se eles nos amam, deveriam entender. Mas como fazer com que entendam?

Meu namorado sabe tudo sobre contaminação, rótulos e complicações da doença. Ele cuida bem da celíaca dele. Não posso e não quero exigir mais. Meu pai testa receitas e até me ajuda a pagar os produtos caríssimos. Coloca a mão na massa sem glúten por mim. Minha mãe, então, não só faz coisas maravilhosas para eu comer como tem me ensinado todos os seus segredos na cozinha.

Sinto que seria egoísmo pedir mais do que isso. Mas não é egoísmo deles?, vocês podem me perguntar. Não sei, não deveríamos julgar como queremos que não nos julguem.

Então, o que fazer?

temgluten

Quando chegam perto de mim com glúten…

“Só me beija antes de beber cerveja”. “Vai sentar longe de mim”. “Cuidado com os farelos, pai!”. “Essa manteiga é minha, não usa!”. “Assa a pizza de vocês no outro forno”. “Viu sem tem glúten?”. “Tem certeza?”. “Tem certeza mesmo?”. “Jura?”.

Conviver com um celíaco é acostumar-se com essas e outras frases. É lidar com a nossa eterna suspeita. Repetimos a mesma ladainha milhões de vezes se necessário for. Não por não confiarmos em vocês, mas por desconfiarmos do glúten. Ele é o problema, não vocês.

Excuse me

Você disse que não olhou o rótulo?!

Enquanto não converto todos a uma alimentação gluten free – um dia quem sabe isso não acontece – adoto todas as estratégias possíveis e impossíveis. Temos uma geladeira para mim. Mais de um liquidificador em casa. Um armário para os meus produtos na dispensa. E muita, muita paciência.

Haja paciência, eu sei!

Eu grito mesmo. Faço escândalo quando vejo um cisco de glúten há quilômetros de mim. Não é exagero. É defesa! É vontade de viver bem. É medo de cair de cama, mais uma vez, como vocês já cansaram de ver acontecer.

Celíaca Brava

Quando dizem que tudo não se passa de “neura” minha…

Aos celíacos que chegaram até aqui: não, eu não tenho a resposta. Vim é saber como foi com vocês e agradecer publicamente a todos que convivem bem com a nossa condição. Que não nos questionam e, quando o fazem, respeitam as nossas decisões. Que respiram fundo quando surtamos por conta do glúten. Que cuidam de nós quando sofremos por causa dele. Que nos amam e nos aceitam sem restrição!

Sabe aquele discurso que eu uso no restaurante? Não queiram me ver utilizando ele com vocês. Posso até acusá-los de tentativa de homicídio, hein! Brincadeiras à parte… cada família é uma família e cada celíaco é um celíaco. Independente de como vocês encaram a doença, só não se esqueçam: assim como a nossa saúde, eles são o nosso bem mais precioso. E vice-versa.

How I met yout mother Gif

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  1. Erony da Silva

    Há anos sou celíaco. Na época o diagnóstico era difícil. Isso tem mais de vinte anos. Graças ao Dr. Roberto Pimentel Dias, grande medico e pesquisador, foi possível detectar a falta de enzima que é responsável pela doença celíaca.

    Com efeito, é uma trama comer fora de casa. Desde 1983 os produtos que contém glúten, obrigatoriamente, devem os fabricantes sinalizar em letras garrafais, se tais e quais alimentos têm ou não glúten.

    Hoje com o avanço da tecnologia, diversos produtos alimentícios são encontrados em lojas especializadas com maior facilidade. Diria mesmo, em supermercados, etc. Todavia, são caros.

    O certo é que tenho convivido com a doença celíaca, nesses anos mais de vinte anos, mantendo uma boa qualidade de vida. Tomo o cuidado. Viajo para o exterior. Lá, como USA, os produtos sem glúten são encontrados com tremenda facilidade. Da mesma forma, na Europa.

    Aqui mesmo em BH a Acelbra ( Associação dos Celíacos do Brasil), regional de Minas Gerais, tem dado suporte aos portadores da doença. A Presidente dessa associação é bastante qualificada e operosa em divulgar os sintomas do doença. Como relatei anteriormente, o diagnóstico nem sempre é fácil. Precisa de paciência e reserva de um dinheirinho para chegar a uma conclusão definitiva sobre a existência da pessoa ser ou não portador da doença celíaca.
    Não tem cura. A dieta é o melhor caminho, bem como ficar atento aos produtos que contém a farinha de trigo, cevada, aveia, etc.
    Por último, diria, que no meu caso, o fator genético não foi decisivo para a descoberta da doença.

    E olha, os sintomas variam de pessoa para pessoa. Os sintomas mais comum são a diarréia e uma protuberância abdominal. Os exames de sangue e a endoscopia são fundamentais para o diagnóstico.

    Erony.

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