27 de setembro de 2016

Lampejo: uma exposição de sketchbooks

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Quando trabalhava como repórter, achava o máximo quando tinha a chance de gravar com artistas fora dos espaços formais das exposições. Longe das galerias, enquanto o cinegrafista captava as imagens do processo (seja ele qual fosse), eu viajava.

Cada cantinho sujo de tinta, a bagunça despropositadamente encantadora, a disposição de objetos minimamente elaborada, ainda que por acaso, para abrigar os momentos de introspecção de mentes extremamente criativas. Tudo me atraía. Era só olhar em volta para compreender porque aquelas pessoas se sentiam tão à vontade na privacidade da criação.

Ainda assim (o tempo de TV costuma ser ingrato), não penetrava tão fundo no método criativo deles quanto a exposição de sketchbooks Lampejo pretende fazer com 19 artistas.

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Ilustradores, designers, tatuadores, arquitetos e escritores foram convidados para apresentar ao público os cadernos normalmente usados para esboços, estudos e devaneios. Invertendo a ordem, a proposta é expor o que, porventura, poderia dar origem às obras finais que geralmente ganham destaque. O que não necessariamente acontece.

Para muitos artistas, o sketchbook é mais do que uma ferramenta de trabalho. É instrumento terapêutico. É depósito de rabiscos. É a materialização do abstrato. É a construção, consciente ou não, de uma linha estética. É descoberta e afirmação. É refúgio.

Diga o que registras, que te direi quem és…

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Além dessa constante curiosidade em acompanhar o fazer artístico, outra coincidência me despertou ainda mais para a mostra. Quando criei o blog, iniciei uma série de posts com os meus cadernos preferidos, interessada não só em mostrá-los. “O que poderíamos encontrar no seu caderno?, repeti para os seus criadores, sabendo que assim seria possível aprender e apreender mais sobre eles.

E é esse o lance da exposição em cartaz, na Galeria Hiato, em Juiz de Fora.

Lampejo é ideia repentina, intensa, mas igualmente passageira, que surge num instante e se vai no outro. Ao menos que seja registrada…

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“Todo sketchbook acaba sendo um pouco egocêntrico”. Na página da Lampejo no Tumblr, Ingryd Lamas – uma das idealizadoras do projeto e que também vai expor o seu – manda logo essa. Não que isso seja ruim. É em torno de si mesmo e de tudo à sua volta que o artista vislumbra suas infinitas possibilidades de trabalho.

Nada mais fascinante para nós do que ter acesso a esse universo tão particular. No caso dela, ao seu irrestível caos. “Meu sketchbook é um lugar de despejo pra mim, e tem sido um desafio não mudar o que colocaria ali, caso não fosse exposto. É um diário, de certa forma, muito pessoal e sem filtros sociais. É o lugar onde experimento sem muito compromisso com o resultado final, que nem sempre é interessante, mas quase sempre serve pra alguma outra tentativa”.

Liberdade

Lampejo1Quando começou a usar os sketchbooks, Luiz Gonzaga, que também integra a exposição, imaginava que os seus primeiros cadernos um dia seriam descobertos como “obras perdidas” e pudessem ser revelados ao mundo. Depois de desistir dessa ideia, que ele bem-humorado chama de “fantasia”, reconheceu as infinitas possibilidades que teria. A liberdade que é possível alcançar com essa espécie de desprendimento.

“É um suporte de produção artística muito particular e eu sentia muita vontade de poder produzir algo assim, mais íntimo; sem regras, sem limites, sem censura… Os cadernos me permitem isso, trazem e dão uma liberdade absurda!”. Ao abandonar as pilhas de desenhos que acumulava e acabava descartando, ele passou a enxergar os sketchbooks como possíveis arquivos de ideias.

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Nicole Bello também costumava jogar fora as folhas usadas para pesquisa e experimentações, mas hoje entende a importância de mantê-las guardadas e de revistá-las “para o exercício de auto-análise e auto-conhecimento”. Para ela, o sketchbook também representa liberdade. “Ele é o processo, o caminho, não um destino. E, por isso, é experiência, não tem tanto compromisso com qualquer objetivo senão o da criação pura e livre.” A única inspiração para o seu caderno que poderemos desvendar na mostra é a vida, arte sobre a qual se debruça.

E qual o mais fascinante lampejo senão o da vida?

Quando deixam a posição de simples rascunhos, reservados somente aos seus donos, os sketchbooks se tornam obras completas em si, feitas para serem percorridas e folheadas. Inacabadas, talvez. Abertas para novas interferências? Sim. O músico, jornalista e escritor Wendell Guiducci deixa o convite em aberto. “Espero que as pessoas levem suas canetas e anotem algumas ideias lá pra mim quando forem visitar a exposição”.

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Dono de muitos sketchbooks, que se alimentam das suas próprias (ins) pirações, Del, como também é conhecido, se considera um eterno rabiscador. “Enquanto houver um canto para ser rabiscado, estando à mão no momento, ele será rabiscado”.

Quer saber, então, de quem são os “rabiscos” publicados aqui? Nas redes sociais da Lampejo é possível conhecer a lista completa dos artistas que vão abrir os seus cadernos e, consequentemente, se abrir para nós.

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Lampejo – uma exposição de sketchbooks

De 30 de setembro a 15 de outubro.
Hiato – Rua Coronel Barros, 38, São Mateus, Juiz de Fora.
Realização Valentina Produtora com financiamento da Lei Municipal Murilo Mendes de Incentivo à Cultura.

Fotos: Divulgação/Nayana Mamede.

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