23 de agosto de 2016

Perfil do artista: Wagner Emerich

IMG_8042 (1)Com uma gargalhada alta, dessas que preenchem o ambiente e nos fazem rir junto, Wagner terminava quase todas as respostas durante a entrevista, até quando o papo ficava mais sério. Não chegou a ser bem uma entrevista. Não teria como. Conheço o Wagner desde o terceiro ano do ensino médio. Fizemos cursinho juntos e fomos da mesma turma na faculdade. Em mais de dez anos, vi ele se transformar em um artista autêntico e engajado. Em um fotógrafo respeitado. Sou suspeita para falar (ele é quem fez as minhas fotos para a página!). Uma pena não conseguir reproduzir em palavras, mas todo mundo deveria ter a chance de ouvir aquela risada… e conhecer um pouco do que ele faz e pensa!

Como tudo começou

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Wagner até poderia ter começado posando para fotos – vejam só esse sorrisinho! Com charisma, uniqueness, nerve and talent, jamais estaria no bottom two e teria que lipsynch for his life (se não entendeu, clica aqui!). Mas ao contrário do que a gente imagina, ele não gosta tanto dos flashes, não.

Durante as aulas de fotografia na faculdade, já se dava bem. Só não imaginava que um dia trabalharia com isso. Depois de formado, fez Pós-Graduação em Cinema, TV e Mídias Digitais, pensando em comprar uma câmera para fazer filmes. O equipamento foi o pontapé para a carreira de fotógrafo.

Os primeiros passos foram dados em eventos – ele é aquele fotógrafo que você grita pedindo prara tirar foto no meio da balada – e as amigas, as primeiras modelos. “Quando começa a carreira, todo fotógrafo pega uma amiga bonita, leva para o trilho de trem e fotografa. É clássica! Graças a Deus, fugi disso”, se diverte.

Fotografar é também contar histórias

O gosto por uma boa conversa e a vocação para o jornalismo acabaram levando-o a se dedicar aos retratos. “A partir do momento que interajo com o outro, construímos a foto juntos. A imagem reflete a história dela, a minha e essa relação entre nós”. Diferente do fotojornalista que precisa cobrir as pautas das notícias, ele é quem define os assuntos que quer abordar. Em seus trabalhos autorais, retrata não só uma pessoa, mas toda uma comunidade que ela representa. “São personagens marginalizados, fora do mainstream. Contribuo com a sociedade dando voz a quem nem sempre é visto ou ouvido”.

Wagner é auto-didata. Tirando as aulas de fotografia na faculdade, aprendeu praticamente tudo que sabe sozinho, assistindo tutoriais na internet e experimentando. Nos vídeos, cansou de ouvir fotógrafos renomados dizendo o que ou não fazer, até perceber que não era bem assim. O conhecimento da técnica existe para alcançar os resultados estéticos esperados, mas nunca para limitar a criação. “Não há certo ou errado. A liberdade é total”.

Por isso, a fotografia é uma forma de arte em que o olhar do artista sempre prevalece e transparece nas imagens. “É o meu modo de ver o mundo. A fotografia pode ser abstrata, minimalista, de paisagem, o que for. Eu escolhi fotografar pessoas porque esta é a forma que consigo melhor me expressar”.

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Apesar disso, como todo artista, Wagner tem suas referências. Fotógrafos que, de certa forma, acabaram inspirando sua forma de trabalhar. Mario Testino, com sua pegada natural, mais espontânea e ousada. O carioca Jorge Bispo com seus “retratos sem disfarces”, como foi definido. Nem um pouco ligado ao universo high fashion, como jornalista Wagner prioriza a verdade: “Pessoas reais pedem poses reais”.

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Em seu trabalho, o cara alegre e brincalhão, também dá lugar a uma face pouco conhecida dele. “Uma vez fiz uma série de fotografias de imóveis tombados em estado de destruição. O material ficou tão triste e melancólico, completamente diferente de como as pessoas me enxergam”. E, assim, Wagner também se surpreende e aprende sobre si mesmo com o que capta pelas lentes.

Folia em branco e preto

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Nos retratos do fotógrafo, a ausência de cores jamais significa menos expressividade. Pelo contrário. “A cor pode desviar o olhar. O foco está completamente no retratado e em sua expressão”. Ao unir seu lado festivo a essa preferência estética, surgiu o trabalho mais conhecido dele, que repercutiu em páginas de grandes jornais e sites especializados como O Globo e Hypeness. A série Folia em branco e preto, criada em 2015, inicialmente retratou pessoas fantasiadas no clima da festa considerada a mais colorida. No ano seguinte, a convite do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas para repetir a exposição, Wagner decidiu que crianças seriam as estrelas da mostra. Para a próxima, já imagina a terceira idade. É esperar para ver!

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Olhar politizado

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“Todo fazer artístico tem um discurso. Nossas escolhas não são por acaso. Querer retratar mulheres, gays, trans e drags é uma questão política. Busco valorizar uma parcela da sociedade que não é minoria, mas que merece um reconhecimento maior“. Não por acaso a parceria com a Mc Xuxu (aquela mesma do “beijo pras trevestis”) tenha rendido tantas fotos incríveis e uma amizade entre os dois. Em breve, o artista pretende lançar o projeto Carão com drags de Juiz de Fora. O ensaio foi pensado e produzido logo após o atentado contra a boate Pulse, em Orlando, e pede um post especial por aqui (já vi algumas fotos e elas estão sickening!!)

Resistência

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Se eu contasse todos os retoques que pedi pra ele fazer nas fotos que tiramos, vocês acabariam reparando em tudo e isso é o que menos quero. Por sorte, ele não aceitou quase nenhum dos caprichos da minha insegurança. Não curte deixar ninguém com cara de “gente que não existe” e ainda me deu um leve puxão de orelha. “O que a gente vê nas fotos das revistas não é real. As modelos não são daquele jeito”.

Isso não significa que ele seja radical e purista a ponto de pedir que a gente apareça de cara lavada, com o cabelo do jeito que acordamos – a Alicia Keys fez isso, mas ela é ela, não?! E quem disse que também podemos?! “Até acho que ficaria lindo, mas as pessoas querem se ver da melhor forma possível quando fazem um book, por exemplo. Existem formas de valorizar a beleza natural que não distorcem a maneira como você se vê e é visto“.

Ao resistir em nos transformar em algo que não somos, Wagner fala também em emponderamento, palavra tão atual e necessária. “Todos precisam se libertar dessa necessidade de alcançar um padrão que não existe”. A aceitação torna a fotografia mais original. Valorizar todas as formas de beleza é também reafirmar os seus posicionamentos.

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“Nós nos vemos de forma diferente que o mundo nos vê. Quando você se olha no espelho ou faz uma selfie, você mostra o que enxerga. Eu quero mostrar como eu te enxergo. Somos a mistura de todas as visões”.

Afinal, como diria mama Ru (deu pra ver que adoramos o reality Ru Paul’s drag race!): “If you don’t love yourself, how in the hell are you gonna love anybody else? Can I get an Amen?”.

@WagnerEmerich

É sempre bom ficar de olho nas redes sociais do fotógrafo (bora seguir ele pra já!). Por lá, ele costuma fazer chamadas em busca de pessoas para estrelar os ensaios que produz. Foi assim, por exemplo, nas séries sobre o Carnaval e com as drags. A partir de um post, ele descobre pessoas que tenham a ver com a proposta do trabalho. Quem sabe você não pode ser o próximo ou a próxima?! A ideia é aprimorar a curadoria a partir do retorno obtido online. “Como sempre bato na tecla da inclusão, preciso garantir a diversidade e para isso participo da seleção”. Por mais que fotografar modelos seja mais fácil (elas são profissionais!), ele prefere um casting formado por pessoas reais. “É um desafio, mas tem mais verdade”.

Fotografia de verdade

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Talvez essa seja mesmo uma boa forma de definir – sem querer limitar – o trabalho do Wagner e quem ele é. A sinceridade daquela gargalhada traduz, ainda que bem pouco, a franqueza, a afetividade e a transparência que conseguimos ver e sentir no trabalho do fotógrafo.

De verdade.

MAIS POSTS SOBRE:

  1. Matheus Andrade

    Que perfil incrível! Amei demais. Waguito e Laila juntos, só amor. Adorei o texto!

  2. Angelina

    Lindo enfoque, linda concepção Laila… trabalho maravilhoso!

  3. Dan Beligoli

    Estou amando tudo o que leio e vejo aqui… Sucesso querida!!!

  4. Gabi Gonçalves

    Amei a matéria!
    eu adoro essa forma inteligente que você faz as perguntas Laila! Parabéns pelo site e pela matéria linda!!
    Parabéns pro Wagner! Adorei conhecer o trabalho dele!
    Beijo
    Gabi

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