3 de abril de 2017

Por que gostamos de musicais

Quando La La Land estreou, iniciei uma saga para encontrar uma companhia para ir ao cinema. Acabei assistindo sozinha e, confesso, esperava mais do filme (o que não vem ao caso!). O namorado odeia musicais e muitos amigos torcem o nariz para o gênero. Por que será?! Ao contrário deles, eu simplesmente amo. Queria que a nossa vida fosse um musical e que pudéssemos sair cantando e dançando o tempo todo. Como pode alguém não gostar de produções (seja no cinema ou no teatro) tão emocionantes e envolventes?!  Em vez de tentar entender porque tanta gente detesta musical, resolvi tentar convencê-los com os nossos argumentos.

Rua 15

MISTÉRIO! Para me ajudar, convidei o elenco do musical Rua 15, em cartaz nos dias 8 e 9 de abril, às 19h, na praça CEU, em Juiz de Fora. O espetáculo do grupo Quem Sou Eu conta a história da investigação do assassinato de um renomado jornalista morto a tiros na calada da noite.

Por que gostamos de musicais? Por que você gosta de musicais?

Álvaro Dyogo – Delegado Claudio Filho, responsável pela investigação do caso da Rua 15.

“Não lembro quando foi que me dei conta de que eu gostava de musicais, mas acho que todo mundo tem aquela música que ouve e pensa: “nossa, foi escrita pra mim!”, em vários momentos da vida. O musical pra mim é isso, traz a música pra expressar o sentimento dos personagens com mais intensidade. E eles simplesmente cantam. Quem tem preconceito com o gênero não sabe que a música já é usada pra contar histórias há séculos. É só entrar na vibe e cantar junto!”

Musical preferido: Os Miseráveis (Les Misérables)

Les Miserables

“Um dos maiores clássicos da história do teatro musical, Les Mis tem todos os ingredientes de uma grande história: uma narrativa intensa, personagens fortes, músicas marcantes e muitos momentos emocionantes. Destaco a cena em que Marius volta ao local em que se reunia com os amigos de revolução. Muito emocionante!”

Les Miserables - Quote - Musical

Bernardo Pereira – Pedro Arantes, a vítima.

“Desde muito novo, era fascinado por música e cinema. O primeiro musical que realmente fez parte da minha vida foi High School Musical. Eu queria viver naquele mundo, eu queria ser tudo aquilo. A grande sacada dos musicais é essa magia única que eles nos transmitem, é uma fantasia que todos nós gostaríamos que fosse verdade. Existe um romantismo atemporal em unir dança, canto e atuação”.

Musical preferido: La La Land

La La Land - Musical

“Em meio a tantos clássicos, eu escolhi um filme recém-lançado que, por muitos, foi considerado superestimado, simplesmente por ele ser corajoso em seu discurso de dizer “ainda é possível fazer musicais originais e lotar as salas de cinema”. Ele celebra o amor, a persistência e todos os clichês que amamos ver em um bom musical. É impecável do começo ao fim e as pessoas facilmente conseguem se identificar com os conflitos dos personagens principais”.

La La Land Quote

Johnny Victor – Oficial Manfred, braço direito do delegado.

“Minha paixão por musicais surgiu ainda pequeno por causa dos filmes da Disney. Me vi fascinado por personagens e suas histórias cantadas e, sob essa influência, imaginava várias situações assim no meu cotidiano. As músicas, as danças, os vários sentimentos que isso trazia à tona. Os musicais da Disney me despertaram gosto por cantar e querer interpretar, e trouxeram essa vida pra minha realidade”.

Musical preferido: Moulin Rouge! – Amor em Vermelho

Moulin Rouge - filme

“Uma grande história de amor intenso. O exibicionismo de Satine, a temática cabaré, o glamour, os figurinos, mas principalmente: a urgência de amar e amado ser. A identificação instantânea com aquela paixão que te arrebata e te arranca o chão sob os pés. As belíssimas canções! Digno de ser visto e revisto até decorar as falas (e cantar junto!)”.

Moulin Rouge Quote

Taysa Ferreira – Elaine Costa, suspeita, amante da vítima.

“O teatro musical é a arte mais divertida do mundo! Imagina que engraçado, perfeito e incrível seria se, em todas as situações da vida, nós dançássemos e cantássemos? Acho que superaríamos todos os problemas muito mais rápido! O que me faz amar essa arte mais do que todas é que posso expressar o que sinto com um passo de dança ou cantando uma melodia!”

Musical preferido: O médico e o monstro (Jekyll and Hyde)

Dr. Jekyll and Mr. Hyde

“Além de a história ser envolvente e instigante, nesse musical vi umas das melhores interpretações da minha vida! Quando David Hasselhoff interpreta a música Confrontation no musical, você mergulha intensamente na dupla personalidade do personagem. É incrível, incrível! Vale a pena conferir!”

O médico e o monstro ilustração

Yago Navarro –  Julio Costa, suspeito, chefe da vítima.

“Eu me lembro muito bem quando fiquei encantado com musicais. Eu tinha 15 anos e fui com meus pais assistir Mamma Mia no cinema. Meu pai não tinha entendido que um filme musical era um filme onde os atores cantavam durante toda a projeção. A cada canção que começava eu o ouvia resmungar na cadeira do lado ‘Não acredito! Mais música? Ah não!’. Enquanto ele reclamava, eu percebia que ele não sentia os filmes musicais da mesma forma que eu. Eu olhava pra tela encantado com o fato de um filme conseguir trazer atuação, canto e dança de forma divertida e bem interpretada. Um filme cheio de cores, alegre, em muitos momentos brega e cheio de clichês muito bem vindos, e era assim que eu imaginava que uma vida perfeita seria, se todos vivêssemos numa ilha paradisíaca onde o sol brilha todos os dias”.

Musical prefeirdo: Grease – Nos tempos da brilhantina

Grease

“Não tem como alguém escutar Summer Nights e não sentir toda a vibe da riqueza cultural dos anos 50. Grease é pulsante e mostra toda a efervescência da adolescência. Sem contar que John Travolta brilha como Danny. Os tempos da brilhantina nunca foram tão incríveis”.

John Travolta

E você, gosta ou não de musical? Conte-me… E ah, se for de JF, não vai perder a oportunidade de assistir um musical idealizado na nossa terrinha, hein! Estarei lá, claro.

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17 de março de 2017

Clipe Basta! – Uiara Leigo

Ao assistir ao clipe Basta, da cantora Uiara Leigo, somos hipnotizados pelo seu olhar. Os olhos claros, transparentes como ela, quase revelam os seus segredos. Expressam dor, inquietação e ternura. Despidos, reluzem cristalinos a sua verdade. A música, com letra e melodia que também nos capturam, apenas traduz o que está evidenciado na fisionomia da artista.

O cenário minimalista, uma aposta inevitável para uma produção com baixo orçamento, valoriza o semblante da cantora, mas não se detém a ele. No clipe, a mensagem sentida por Uiara quando compôs a canção de forma livre e espontânea, no que chama de um “rompante de criação”, é compartilhada por outras pessoas. “A música fala sobre ser guiado pelo caminho dos outros e não por suas próprias escolhas e vontades”, conta.  A composição que nos lembra que “é preciso viver o que se é” ganha mais vozes numa obra-prima forte e honesta.

Com a missão de abrir os corações, a cantora generosamente abre o seu e convida personagens reais a fazerem o mesmo. Com direção da estreante Cris Magalhães, o clipe é inspirado no projeto Giz do fotógrafo Rafael Aguiar, que também assina a direção de fotografia. No projeto original, modelos nus trazem para um grande quadro negro o que carregam dentro de si.

Basta - Uiara Leigo - Laila Hallack

Para adaptar ao clipe, além do uso do figurino, foi necessário direcionar o que seria desenhado ou escrito de acordo com o conceito da música, sem que isso tirasse a espontaneidade do convidados. “Um dos cuidados que tomei ao dirigir as pessoas foi o de dar liberdade criativa para o que seria colocado ali. Minha orientação se deteve ao espaço e aos movimentos, mas as mensagens são totalmente verdadeiras“, explica a diretora.

A estética do clipe também expressa o Basta!. “A intolerância e o preconceito não são coloridos, procurei reduzir a cor ao máximo, mas ainda destacar os olhos da Uiara e o vermelho que aparece algumas vezes pela simbologia. É como um recado: estamos de olho no que vocês nos provocam!”, ilustra Rafael Aguiar.

Assim como nós, que somos tocados por cada aparição no clipe, durante as gravações a cantora também se comoveu com os convidados. Nos bastidores, diz ter vivido momentos únicos e sentido uma emoção arrebatadora.

“Ver a Lorraine desenhar um estereótipo de mulher e mostrar que não devemos seguir padrões, desenhando uma cabeça com cabelos de flor, foi sensacional! Lucas, que retorna como LU CY, escrevendo todas as agressões verbais que escuta no dia a dia, me fez chorar muito… Rita, de uma forma muito simples e forte, trouxe para mim o conhecimento sobre a invisibilidade que criamos para os deficientes físicos. Larissa Andrioli, com sua coragem, expôs sobre a cultura do corpo e a gordofobia, que marcam negativamente a vida de milhares de pessoas. Janaína traz, com sua feminilidade e dança, a valorização do corpo da mulher, através do projeto “Meu corpo, meu sangue”. Juliana lindamente trouxe a força da mulher negra, defendendo nossas raízes ancestrais, cultura que é marginalizada há séculos por homens que acham que só existe uma verdade no mundo. Vinícius, o menino homem mais fofo do clipe, mostra que as diferenças têm que existir porque somos mais que especiais! E com João Vitor, em sua borboleta negra, expressando o que é ser negro em nossa sociedade, fui às lagrimas na hora em que ele desenhou aquele cifrão na camisa!”.

Olho no olho

UIARA LEIGO

Tamanha entrega resulta em um dos raros clipes que nos arrepiam a cada cena. Se pudéssemos assisti-lo em silêncio, talvez ainda escutaríamos o grito guardado no peito de quem convive com as mais violentas formas de opressão. Não que a canção se faça desnecessária – dela nasceu o Basta e todos os seus desdobramentos: a cantora tem ainda um projeto em que leva manifestações artísticas para os espaços públicos numa mobilização pelo fim da intolerância.

O clipe apenas destaca o que os admiradores do trabalho da artista já sabiam. Uiara canta com os olhos, com as mãos e com a alma. Ao fitarem diretamente para a câmera, os participantes também nos alcançam com o olhar. Como nunca, música e imagem ultrapassam a linguagem técnica – executada com altíssima qualidade – para trazer, contra aqueles que se opõem à diversidade humana, um imperativo urgente: Basta!

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