9 de janeiro de 2017

Você é gordofóbico?

Faço todos os testes do Facebook e nem sempre compatilho o resultado. Só quando convém, claro. Quem nunca? Numa dessas, acabei descobrindo: eu sou gordofóbica. Ou, para ser menos severa comigo mesma, reproduzo falas ou pensamentos gordofóbicos, mesmo que não tenha a intenção de fazer isso.

Com os posts da Helena, do Garotas Rosa Choque, eu já tinha começado a rever meus conceitos. Com muita atitude, a blogueira plus size combate a intolerância e reafirma a importância da verdadeira aceitação.

Garotas Rosa Choque - Quotes

Bora seguir pra já: @garotasrosachoque!

O primeiro passo para mudar algo em nós é reconhecer o que precisamos mudar, certo? Mas como fazer isso?

Aquele teste compartilhado por ela me fez perceber que ainda tenho muito o que aprender e que, para praticar a tal da empatia, precisamos nos colocar no lugar do outro. Por isso, resolvi convidá-la para contribuir nesse post.

Pedi que escrevesse 5 atitudes gordofóbicas que afetam negativamente as pessoas gordas (e irritam também!). A blogueira me explicou que existem vários tipos de posturas gordofóbicas, algumas sem a intenção de ofender e outras com o único objetivo de ferir e insultar o gordo. Mas, não importa, porque se até uma brincadeira pode atingir alguém, qual a graça dela?!

Se a lista soar como um puxão de orelha ou uma leve cutucada, é porque, assim como eu, você também deveria repensar a sua forma de agir ou pensar…

Com a palavra, a sempre lacradora Helena!

Helena - Garotas Rosa Choque

Foto: Mateus Aguiar.

1 – HOJE É DIA DE GORDICE…

Pessoas magras dentro do padrão reclamando que sofrem com o corpo, que se acham enormes de gordas, que estão se sentindo baleias ou monstros. Isso é super problemático e constrangedor para a gorda que está ouvindo ou lendo, no caso das redes sociais. Não é difícil imaginar o porquê, mas muitas pessoas não entendem que se você magra acha isso do seu próprio corpo, imagina o que você acha do nosso corpo?

2 – CHORO MAGRO

Reclamar que sofre magrofobia, ou seja, o famoso choro magro. Isso é irritante pois, sim, todas as mulheres sofrem pressão estética, homens podem sofrer também, mas uma piada te chamando de palito não está nem perto do que os gordos passam todos os dias. Gordofobia não é apenas bullying, o gordo sofre com questão de mobilidade – isso inclui de não poder passar em catracas à não conseguir atendimento médico por não ter equipamentos hospitalares que os comportem. Então, comparar e reduzir a gordofobia com ser chamado de magrelo ou ter complexo do corpo é o mesmo que dizer que sofre racismo inverso.

3 – VOCÊ É DESLEIXADO…

As pessoas costumam acreditar que o gordo não é capaz, é desleixado, relaxado, não tem relacionamentos, é infeliz e compulsivo. Só de olhar para uma pessoa gorda muita gente já tem tudo isso em mente, preconceitos sem sentido nenhum, mas que numa sociedade totalmente superficial é compreensível. Então, não contratar gordos, não confiar a gordos tarefas e projetos importantes, não se relacionar com gordos, tudo isso baseado nesses preconceitos, acontece demais.

4 – PREOCUPAÇÃO COM A SAÚDE?!

Dar opinião sobre o corpo de pessoas gordas e dizer que não é questão estética, que está preocupado com a saúde da pessoa. Isso chega a ser ridículo, pois isso só acontece com gordos, se você fuma, come todo tipo de porcaria, bebe e é magro, ninguém te olha de cima embaixo e decreta que você está à beira da morte.

5 – O SEU ROSTO É LINDO!

Elogiar o gordo dizendo que ele tem o rosto muito bonito, dando a entender que o corpo não é, ou dizer descaradamente que se a pessoa emagrecer vai ficar bonita é terrível. É um falso elogio, que na verdade acaba por ser uma forma de dizer que não aceita o corpo do outro, sendo que: ninguém perguntou! As pessoas, aliás, acham que o corpo da pessoa gorda é público, que elas podem opinar, apontar na rua e decidir se está bom ou não. Indicar dietas a torto e a direito e até mandar fazer cirurgia bariátrica: todo mundo vira médico especialista quando tem um gordo por perto.

Quotes - Garotas Rosa Choque

Se você chegou até aqui, talvez esteja perguntando porque resolvi falar sobre isso no blog. Não foi só o teste. A convivência com pessoas “acima” do peso (termo propositalment escolhido, ok), talvez? Não exatamente. Nem tampouco as minhas crises diante do espelho. Está aprendido. Ainda que as revistas e as redes sociais nos levem a essa insatisfação crônica: choro magro, nunca mais!

Foi ao ver o antes e depois invertido (antes mais magra, depois com 25 quilos a mais) publicado pela Fernanda Carneiro que decidi escrever o post. Ela está igualmente linda e é uma das personalidades mais engraçadas, inteligentes e bacanas que descobri na internet nos últimos tempos (além de fazer receitas incríveis sem glúten).

Ao descobrir a doença celíaca e tirar o glúten da minha alimentação, inicialmente eu engordei bastante (pois é, nem sempre cortar o glúten emagrece). Não entendia a felicidade do médico diante da balança e sempre saía frustrada do consultório. Hoje eu sei que aquilo significava que eu estava me recuperando, que o meu instestino voltava, aos poucos, a absorver os nutrientes.

Nunca fui gorda e nem quero comparar uma coisa com a outra (outra lição aprendida!), mas precisamos, todos, dar um basta para a ditadura da imagem. Que façamos a nossa parte por uma sociedade menos superficial, que seja menos cruel e mais generosa com a diversidade.

Hilda Pin Up

Hilda, uma das pin ups mais famosas dos anos 50, criação do ilustrador Duane Bryers, tinha lindas curvas generosas.

Pin Up Plus Size

Nas palavras da criadora do LeveMe e uma das melhores pessoas para seguir, uma constatação pouco nova, mas ainda necessária: “a beleza, minha gente, é plural”. E tem diversas formas, tamanhos, cores…

Pinup Plus Size

MAIS POSTS SOBRE:

15 de setembro de 2016

Basta!

basta

“Basta com a paz do verão que me deu
Chega de cais, de porão e portais
Por ter meio, por ser chão eu me entrego

Basta com a dor que o inverno me deu
Chega de chás, de perdão e jornais
Por ser meio, por ter chão eu me encerro”

Diante de qualquer tipo de intolerância, a vontade que temos é a de reagir. Gritar. Dar um basta! Às vezes, as palavras não saem com a mesma força que a nossa indignação. A voz embarga. Silencia.

Uiara

Voz da liberdade

Com a música, Uiara Leigo sempre conseguiu expressar as suas mais diferentes inquietações. Ao compor e cantar, dá um basta a tudo que lhe aflige. Não se cala. Não à toa uma canção do CD “Meu canto é segredo,” lançado no fim do ano passado, tem esse nome.

Para produzir o clipe da música , a cantora lançou uma enquete no Facebook com a pergunta: pra quê você daria um basta? Foram vários relatos. Homofobia, racismo, machismo, preconceito religioso. A partir da repercussão gerada pelo questionamento, veio a ideia de formalizar aquilo que já fazia nos shows. “As pessoas estão precisando colocar para fora as suas angústias, mas nem sempre há espaço para isso. Pensamos, então, em criar um projeto que pudesse alimentar esse desejo e agregar outras manifestações artísticas que também dessem um basta à intolerância de gênero, raça e religião”, explica.

A primeira edição do evento, realizada em maio deste ano, reuniu mais de 500 pessoas de todas as tribos e idades. Apesar do tom imperativo do nome, a proposta é tratar os temas de forma poética. “Com a arte, conseguimos sensibilizar e alcançar mais gente”. No contraponto do que parece uma imposição, está a busca por mais empatia e compreensão, o que não significa que a força do Basta! (com exclamação!) seja menos necessária no combate à intolerância.

Na praça

basta

Riqueza natural e cultural

A iniciativa ocupa um espaço público com as mais ricas manifestações da diversidade com artistas, grupos e coletivos que também se dedicam para que todos sejam respeitados pelo que são, independente de suas características, origens e escolhas.

A praça do bairro Jardim Glória (mais conhecida como praça do Bar do Leo) acolheu e dialogou com o propósito do Basta!. “O clima da natureza envolve não só as linguagens do meu show. Essas são as raízes que alimentam o projeto. Escolhemos um lugar democrático que nos conecta, onde as pessoas tenham livre acesso para participar”.

Arte para mudar o mundo

Embora prefira não chamar assim, Uiara sabe que a bandeira que o projeto defende não é nova. Infelizmente. “Propomos apenas outra abordagem para discutir algo que já poderia ter sido resolvido na humanidade. Em tempos de tantos desajustes, a arte é ainda mais necessária”. E é através dela que espera mudar o mundo.  “Quero tocar as pessoas com o que escrevo, canto e interpreto. A arte me transforma. Espero que ela possa transformar mais gente“.

Cantar a diversidade

basta

Mulher, homossexual, seguidora de uma religião de matriz africana. Uiara sabe a importância de trazer à tona todas essas questões, assim como todos os participantes do projeto. O discurso do Basta! está longe de ficar restrito ao campo das palavras, dos versos, da melodia, dos sons com raízes africanas, dos ritmos mineiros, das fotografias com casais homoafetivos, da dança folclórica ou dos ideiais feministas. Ao retratar a diversidade com transparência e ternura, ele fala direto aos corações.

“Com a arte o diferente se torna mais ‘normal'”. Não que não seja. Mas pelo menos aos olhos de quem insiste em enxergar assim, a arte tem a capacidade de fazer com que possam ver a diferença com menos preconceito, mais respeito e, quem sabe, com mais amor.

 

Pra anotar: a segunda edição do Basta! está marcada para o dia 25/09. Eu vou e você?

MAIS POSTS SOBRE: