12 de maio de 2018

Sobre ser mãe de uma celíaca

Todas as mães sofrem. Por 9 meses, sofrem os desafios físicos e emocionais de carregar no ventre uma nova vida. Sofrem a pressão da sociedade para que sejam assim ou assado. Muitas vezes, sofrem com o abandono do pai da criança e continuam, sozinhas, enfrentando os desafios da criação dos filhos. Sofrem tantas imposições para que recuperem o corpo, não dediquem o tempo apenas aos filhos, mas também não os abandonem para focar muito na carreira.

Mães sofrem. Sofrem o tempo todo porque são mulheres e mulheres sofrem as mais diferentes violências diariamente. Elas não sofrem resignadas como querem que pensemos. A maternidade é uma benção, mas nunca um conto de fadas.

Eu pensava em escrever sobre os desafios de ser mãe de uma celíaca. Há quilômetros de distância, entrevistei a minha esperando construir um texto informativo que pudesse ajudar a comunidade celíaca. Quando percebi que, não importa a situação, não importa a dificuldade, todas as mães sofrem.

Minha mãe sofreu quando aos 20 e poucos anos teve um filho com Síndrome de Down e o termo inclusão social ainda nem era usado. Sofreu e ainda sofre por trabalhar pela causa das pessoas com deficiência numa sociedade tão egoísta e desigual. Sofreu com as dificuldades do seu filho, mas sobretudo com as dificuldades do mundo em aceitá-lo e respeitá-lo. Sofreu a cada lágrima derramada pelo meu irmão, pela minha irmã e por mim.

Eu não tinha dúvidas de que, assim como eu, ela provavelmente tinha sofrido muito quando descobrimos o diagnóstico da doença celíaca. Feliz engano.

Quando perguntei qual tinha sido a sua reação, ela respondeu com sua voz doce num tom tão baixo que foi preciso esforço para ouvir. Cada palavra emitida curiosamente me fazia sentir ainda mais perto dela mesmo estando em outra cidade. Embora esperasse que ela enumerasse as suas preocupações com a doença celíaca, serenamente falou: “tudo que é novo e desconhecido gera medo”. Tá bem, mãe. Mas que dificuldades você teve comigo? “Nenhuma… depois que lemos tantos livros e publicações, aprendemos sobre a contaminação cruzada, adaptamos a casa, o resto é com você”.

Como jornalista, eu confesso. Às vezes esperamos algumas respostas, pois contamos com elas para construir aquela história que tínhamos em mente. Ainda bem que quase sempre somos surpreendidos e obrigados a sair do roteiro antecipado pela ânsia de mostrar aquilo que queremos.

Uma mãe cria os filhos para que eles possam voar. E logo eu, a caçula sempre tão paparicada, a cada resposta recebia uma nova lição. “Fico feliz em vê-la fazendo tudo sozinha, podendo morar fora e, aos poucos, aprendendo que tem condições de viver bem em qualquer lugar do mundo”, me encorajou com a sua fala otimista.

Ainda insatisfeita, pois queria um post que rendesse compartilhamentos e fosse bem rankeado, insisti. Mais uma vez, ela resolveu me desarmar. “Aprendi com a doença celíaca que o glúten não faz tanta falta. Uma alimentação saudável nem sempre precisa do glúten. Transformamos tudo o que você gostava muito… e foi dando ainda mais certo”, completou mostrando definitivamente que eu deveria mesmo era escrever sobre a sua maneira de enxergar a vida.

Mães sofrem, mas mais do que isso, mães amam, cuidam, protegem, amparam. Mães são fortes e atacam quando precisam atacar. Defendem a cria. Desafiam a própria cria. Mães ensinam. Não só a andar, a falar ou a cozinhar como a minha fez (ao lado do meu pai!).

I got it from my mama

A minha mãe me ensina, todos os dias, quando me pede que eu seja grata até pelas dificuldades. Me ensina ao pedir que eu tenha mais paciência. Me ensina ao valorizar as coisas mais simples. Me ensina ao ser tão generosa. Me ensina até quando silencia.

Ela me ensina quando esconde as suas preocupações com a doença celíaca – se é que ela as tem – e nas entrelinhas diz: “filha, vá viver, vá ser saudável, pois a sua doença não é nada”.

Feliz dia a todas as mães de crianças celíacas, a todas as mães celíacas… a todas as mães, pois independente se o filho carrega um diagnóstico ou não, sei o quanto vocês sofrem para que eles estejam sempre bem!

Felizes sejam as mães e que todas as dores por elas sentidas nos infinitos desafios da maternidade sejam amenizadas pela certeza de que, não importa como, a missão de cada uma está sendo cumprida.

Ah, antes que eu me esqueça, minha mãe me ensina a ser humilde e a controlar as armadilhas do ego, mas depois de uma resposta dessas, como não me achar?! “As receitas que você faz com tanta seriedade e compenetração saem melhores do que as nossas. Os bolos, por exemplo, você faz melhor do que eu. Tudo sai perfeito”, elogiou uma mãe descaradamente coruja.

E, afinal, qual não é?!

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17 de março de 2018

Para não dizer que não falei da doença celíaca

Ou melhor: para não dizer que só falei da doença celíaca!

Muitas vezes já pensei em fazer outro perfil nas redes sociais para falar exclusivamente da doença celíaca. Já considerei, inclusive, criar outro blog pra isso. Tudo bem que por aqui, no Instagram e no Facebook (ainda não me segue?!) as coisas aconteceram naturalmente. Como celíaca, sempre compartilhava e postava coisas relacionadas a isso. Até que um dia percebi que estava “produzindo conteúdo” sobre a vida sem glúten.

Definido o meu nicho, eu poderia ter adotado algumas estratégias para alcançar um público maior. Às vezes sinto que ainda há poucos celíacos por aqui (se identifiquem, vai…), mas o blog tá longe de ser meu principal trampo e a vida não tá ganha pra ninguém, não é mesmo?!

Robin

Não tá “fácio”!

Mas apesar de tudo me indicando o caminho a seguir e mesmo sabendo que a galera que me segue por outros motivos às vezes deve ficar de saco cheio de tanto que eu falo disso, eu insisto em manter tudo junto. Sabem por quê?!

Não me importo se os celíacos forem aparecendo aos poucos, nem se você que não tem nada a ver com isso pular os meus stories quando lhe convém. Se uma única pessoa se tornar mais compreensiva com a nossa causa, sinto que o meu trabalho surtiu efeito. Se alguém pensar em fazer os exames e considerar a possibilidade da doença celíaca por lembrar de mim, o meu falatório terá sido válido. Se passarem a lembrar de nós celíacos quando verem um rótulo ou estiverem em um restaurante, teremos atingido o nosso principal objetivo.

Leia também: Precisamos falar da doença celíaca

Não é só sobre levar informação, entendem? É sobre conseguir transformar o ambiente em que estamos inseridos. Afinal, não queremos que o mundo se torne mais compreensivo com a nossa condição?! Não queremos mais empatia? Não queremos que, não só os celíacos, mas principalmente os não celíacos, nos respeitem?

Falar entre os nossos semelhantes é essencial, mas ampliar a nossa voz entre aqueles que desconhecem a nossa luta é fundamental para conseguirmos vencê-la.

Não somos apenas a doença celíaca

Sex and the City

Eu também poderia me dedicar a postar mais receitas, novos restaurantes e dicas de produtos sem glúten. Poderia e vou fazer isso (prometo!), mas gosto de mostrar quem sou além da doença celíaca. Ela nos define, eu sei, mas não somos apenas o diagnóstico.

É um barato conhecer a pessoa por trás da doença. Saber que a vida segue apesar dela. Que dá para trabalhar, se relacionar e se divertir. Que nem sempre é fácil, mas que rindo ou chorando das situações difíceis elas passam. Sempre passam. Que dá para recuperar a auto-estima, superar antigos desconfortos e afastar as complicações.

Reconhecer a humanidade do celíaco é fascinante. Pô, o Tiago Leifert é celíaco. A Isis Valverde. Você, eu e muitos outros também. Não somos iguais, mas aposto que temos muito mais em comum do que a doença celíaca.

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