7 de fevereiro de 2017

Moda pelo mundo: Peregrina

Peregrina

Quando resolvi que escreveria sobre moda estava decidida. Só falaria sobre marcas que trazem algo mais além da roupa. Algum propósito, ideias criativas e conceitos que carregam, de alguma forma, aquilo que eu acredito. Já que moda também é cultura, pensei, então, que sempre que o assunto surgisse no blog eu pediria para os criadores das marcas me indicarem 1 livro, 1 filme e 1 música que se relacionassem com a proposta deles. Fiz isso com a Maruscka Grassano, da Peregrina (as escolhas dela estão lá embaixo).

Coloquei a música I’m a Gypsy, da Shakira, para tocar e rapidamente me transportei para a estrada. Só não sei para onde. Quem se importa? Curiosamente, o verso que ela escolheu também me marcou desde que ouvi a canção pela primeira vez.

 “Walking gets too boring when you learn how to fly

Peregrina - Moda étnica

Por falar em voar…

A Peregrina nasceu em 2014 quando a Maruscka fez um intercâmbio profissional na Índia. Ela, que nunca se interessou por moda, se encantou com a diversidade de cores e texturas das roupas e dos acessórios do país. Não tinha como ser diferente! Como o filme “Comer, Rezar e Amar” foi o escolhido por ela, me dei a liberdade de viajar um pouco e recriar cena que, provavelmente, deu início à história da marca.

Hospedada na casa do amigo colombiano que estava morando na capital Nova Délhi, Maruscka o acompanhava em suas atividades. Marino Arce fazia transações comerciais: comprava produtos da Índia e vendia na Colômbia. Um dia, enquanto o esperava fazer os seus negócios, acabou encontrando o rumo que queria dar para a sua vida. Ou o homem que, mesmo sem saber, a ajudaria nisso.

Sentada nas mesas do lado de fora daquela espécie de restaurante, distraída e absorvida pela excêntrica movimentação, mal percebeu a presença dele. O hippie, com seus trinta e poucos anos, sentou-se ao seu lado. Era comum fazer isso naquele lugar. Compartilhando a mesa, com seus dreads loiros, despertou a curiosidade aguçada da jovem jornalista que acabara de pousar em um universo tão diferente do dela.

(A partir daqui entendam que estou dando ainda mais asas para a minha imaginação…)

Aqueles olhos claros contrastavam com a pele bronzeada a ponto de deixá-los quase transparentes. Tentou não fitá-los diretamente. Não sabia qual seria a reação do estranho diante do desconcertante fascínio que tentava disfarçar. Não resistiu e decidiu levantar a sua ficha.

– Olá, tudo bem? Meu nome é Maruscka, sou brasileira…
– Brasileira? – a interrompeu como se constatasse algo que já suspeitava. Está aqui a passeio?

Iniciaram a trivial conversa até que chegaram no que ela queria tanto saber.

– Daqui seguirei para outro lugar. Assim vou vivendo. De um país a outro, me perdendo e me encontrando. Vendo os produtos não como forma de sobreviver, mas porque acredito que as riquezas dessas culturas precisam ultrapassar as fronteiras estabelecidas pelo homem.

O que se sucedeu do encontro promovido pelo acaso só os dois sabem, mas o estiloso austríaco marcaria para a sempre a sua história.

(Voltando à realidade…)

Naquela conversa despretensiosa, Masruscka teve um desses estalos que costumam nos despertar para o óbvio que às vezes ignoramos.

“Logo entendi que eu queria que a Peregrina (ainda sem esse nome) percorresse o mundo trazendo produtos de diferentes etnias. Procurei um nome que refletisse o espírito do viajante, de uma vida cigana, aquela vibe do wanderlust (desejo de viajar, de caminhar em direção ao desconhecido)”.

We are all indians

A coleção “We are all Indians” faz como a língua inglesa e não diferencia índios e indianos. As peças expressam essa irrestível miscigenação pelo mundo: tem acessórios garimpados com nativos de Alter do Chão, no Pará, e roupas produzidas a partir de sarees indianos.

Como já estava na Índia, Maruscka começou enviando os produtos de lá para o Brasil. Daqui, algumas pessoas a ajudavam a vendê-los. Mesmo após ter contato com outros fornecedores, até hoje ela ainda importa da mesma lojinha onde fez a primeira compra. De lá para cá, as peças da Peregrina passaram as ser trazidas de várias partes do mundo: da Colômbia à África.

Coleção Nova Peregrina

Detalhe Peregrina

Recentemente, sem deixar de garimpar produtos com referências étnicas por todo o planeta, Maruscka decidiu criar uma produção local a fim de ter um maior controle da qualidade, especialmente no acabamento das roupas. “A ideia é que um dia eu seja capaz de acompanhar toda a cadeia de produção da Peregrina, garantindo uma remuneração justa, por exemplo”, planeja. A confecção em terras brasileiras veio também para adaptar as peças ao design do nosso país (vide cropped acima) e criar roupas plus size.

Peregrina Close

Peregrina Beleza Diversidade

Beleza plural

Não é de hoje que as marcas passaram a apostar na tal beleza real, mas poucas o fazem com intenções honestas e não apenas para atender à legítima demanda do mercado. Traduzindo: quase sempre elas querem simplesmente vender mais.

Combater o padrão imposto pela sociedade e fazer com que as diferentes mulheres se sintam representadas era um caminho inevitável para a Peregrina, uma marca que contempla tantas etnias e reforça a pluralidade do mundo. “Há tanto tempo esse padrão vem sendo responsável não por nos inspirar, mas por nos fazer questionar a nossa própria beleza. Não fazia sentido trabalhar apenas com modelos dentro desse padrão”.

Na tentativa de diversificar o casting e fazer um ensaio com mulheres de diferentes biotipos, origens e idades, Maruscka e Wagner Emerich – do estúdio O retratista – acabaram tendo que se deter à aparência. Mas ao conhecer a história de cada uma das cinco escolhidas que participaram do ensaio Toda forma de (auto) amor, perceberam que além da beleza de suas formas, cores e traços, todas traziam em sua essência algo que as faziam ainda mais bonitas por serem exatamente quem são.

“O ensaio é só uma pontinha de todo um processo em que venho aprendendo que quando uma mulher se cura e se ama de verdade é capaz de transformar muita coisa à sua volta, de transbordar esse amor e apoiar outras mulheres que também passam pelo mesmo processo. De alguma forma, acredito que contribuí para que elas percebessem o quão maravilhosa são. E elas fizeram o mesmo comigo”.

Peregrina Ensaio

Corre para conferir o ensaio completo: mulheres lindas e reais nos lembrando a beleza da diversidade.

Moda com consciência

Deu para sacar que o valor dos produtos da Peregrina não está no custo deles, mas na riqueza cultural e nos princípios que carregam. Vestir uma peça que viajou tanto até chegar a você é assumir, ainda que por instantes, o estilo e parte da identidade de um lugar que talvez você nunca vá estar.

É criar o seu próprio estilo, livre de tendências e modismos. É entender a moda além da moda. É vestir a diversidade que estampa e colore o mundo. É reconhecer que a moda também conta histórias e faz história.

“Para quem é apaixonado, assim como eu, por desbravar outras culturas, descobrir novos cheiros e sabores, a Peregrina é um prato cheio. Ainda me lembro quando chegou a primeira caixa com as mercadorias que a artesã Joanita me mandou de Uganda. Era um pedacinho de lá, sabe? E é essa troca que eu vejo que outras pessoas também sentem quando adquirem alguma peça da Peregrina.”

Peregrina

Além de traduzir o espírito de liberdade das peregrinas, as saias, vestidos e blusas feitas a partir da sarees, batas, kimonos e kaftans são quase sempre únicas. “Tentamos vender peças exclusivas. Se não forem, haverá pouquíssimas similares. As pessoas são únicas. Não têm porque se vestirem tão iguais“, defende.

Peregrina O retratista

Uma moda diferente também começa por fazer moda de um jeito diferente. “A indústria da moda é uma das mais poluidoras do planeta. Ela escraviza e mata pessoas. Isso não pode ser moda”, indaga. Na contrapartida das tendências reproduzidas em grande escala, do fast fashion e do consumismo desenfreado,  Maruscka busca propagar o conceito do consumo consciente. “A maioria das nossas peças são artesanais, feitas por comunidades, valorizando o trabalho e a cultura desses povos. Somos responsáveis por causar impacto econômico direto nas nossas áreas de atuação e isso tem um valor enorme”.

Para seguir

Nas redes sociais da criadora da Peregrina e na página da própria marca, Masruscka compartilha conteúdos que vão do empoderamento feminino ao cuidado com o meio ambiente: valores que precisam urgentemente estar na moda. Para ela, as postagens apenas refletem o espírito da marca. “A Peregrina é um ideal. De vida, de consumo, de tratamento aos seres humanos, ao planeta e aos animais”, conclui, provando para mim que a moda pode ser, sim, fascinante, engajada e extremamente relevante.

 

Peregrina indica:

  • FILME: Comer, Rezar e Amar – “Desde o começo, eu definia a Peregrina como o “Comer, Rezar e Amar” da moda.  Cada peça traz consigo a cultura de um povo. É uma experiência única e rica, como a vivida no filme”.
  • MÚSICA: I’m a Gypsy, Shakira – “A letra fala sobre quebrar o coração por onde passamos e juntar os cacos. É sobre o medo do desconhecido. A frase que mais define a Peregrina é quando ela diz que caminhar fica chato demais depois que você aprende a voar”.

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23 de agosto de 2016

Perfil do artista: Wagner Emerich

IMG_8042 (1)Com uma gargalhada alta, dessas que preenchem o ambiente e nos fazem rir junto, Wagner terminava quase todas as respostas durante a entrevista, até quando o papo ficava mais sério. Não chegou a ser bem uma entrevista. Não teria como. Conheço o Wagner desde o terceiro ano do ensino médio. Fizemos cursinho juntos e fomos da mesma turma na faculdade. Em mais de dez anos, vi ele se transformar em um artista autêntico e engajado. Em um fotógrafo respeitado. Sou suspeita para falar (ele é quem fez as minhas fotos para a página!). Uma pena não conseguir reproduzir em palavras, mas todo mundo deveria ter a chance de ouvir aquela risada… e conhecer um pouco do que ele faz e pensa!

Como tudo começou

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Wagner até poderia ter começado posando para fotos – vejam só esse sorrisinho! Com charisma, uniqueness, nerve and talent, jamais estaria no bottom two e teria que lipsynch for his life (se não entendeu, clica aqui!). Mas ao contrário do que a gente imagina, ele não gosta tanto dos flashes, não.

Durante as aulas de fotografia na faculdade, já se dava bem. Só não imaginava que um dia trabalharia com isso. Depois de formado, fez Pós-Graduação em Cinema, TV e Mídias Digitais, pensando em comprar uma câmera para fazer filmes. O equipamento foi o pontapé para a carreira de fotógrafo.

Os primeiros passos foram dados em eventos – ele é aquele fotógrafo que você grita pedindo prara tirar foto no meio da balada – e as amigas, as primeiras modelos. “Quando começa a carreira, todo fotógrafo pega uma amiga bonita, leva para o trilho de trem e fotografa. É clássica! Graças a Deus, fugi disso”, se diverte.

Fotografar é também contar histórias

O gosto por uma boa conversa e a vocação para o jornalismo acabaram levando-o a se dedicar aos retratos. “A partir do momento que interajo com o outro, construímos a foto juntos. A imagem reflete a história dela, a minha e essa relação entre nós”. Diferente do fotojornalista que precisa cobrir as pautas das notícias, ele é quem define os assuntos que quer abordar. Em seus trabalhos autorais, retrata não só uma pessoa, mas toda uma comunidade que ela representa. “São personagens marginalizados, fora do mainstream. Contribuo com a sociedade dando voz a quem nem sempre é visto ou ouvido”.

Wagner é auto-didata. Tirando as aulas de fotografia na faculdade, aprendeu praticamente tudo que sabe sozinho, assistindo tutoriais na internet e experimentando. Nos vídeos, cansou de ouvir fotógrafos renomados dizendo o que ou não fazer, até perceber que não era bem assim. O conhecimento da técnica existe para alcançar os resultados estéticos esperados, mas nunca para limitar a criação. “Não há certo ou errado. A liberdade é total”.

Por isso, a fotografia é uma forma de arte em que o olhar do artista sempre prevalece e transparece nas imagens. “É o meu modo de ver o mundo. A fotografia pode ser abstrata, minimalista, de paisagem, o que for. Eu escolhi fotografar pessoas porque esta é a forma que consigo melhor me expressar”.

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Apesar disso, como todo artista, Wagner tem suas referências. Fotógrafos que, de certa forma, acabaram inspirando sua forma de trabalhar. Mario Testino, com sua pegada natural, mais espontânea e ousada. O carioca Jorge Bispo com seus “retratos sem disfarces”, como foi definido. Nem um pouco ligado ao universo high fashion, como jornalista Wagner prioriza a verdade: “Pessoas reais pedem poses reais”.

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Em seu trabalho, o cara alegre e brincalhão, também dá lugar a uma face pouco conhecida dele. “Uma vez fiz uma série de fotografias de imóveis tombados em estado de destruição. O material ficou tão triste e melancólico, completamente diferente de como as pessoas me enxergam”. E, assim, Wagner também se surpreende e aprende sobre si mesmo com o que capta pelas lentes.

Folia em branco e preto

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Nos retratos do fotógrafo, a ausência de cores jamais significa menos expressividade. Pelo contrário. “A cor pode desviar o olhar. O foco está completamente no retratado e em sua expressão”. Ao unir seu lado festivo a essa preferência estética, surgiu o trabalho mais conhecido dele, que repercutiu em páginas de grandes jornais e sites especializados como O Globo e Hypeness. A série Folia em branco e preto, criada em 2015, inicialmente retratou pessoas fantasiadas no clima da festa considerada a mais colorida. No ano seguinte, a convite do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas para repetir a exposição, Wagner decidiu que crianças seriam as estrelas da mostra. Para a próxima, já imagina a terceira idade. É esperar para ver!

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Olhar politizado

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“Todo fazer artístico tem um discurso. Nossas escolhas não são por acaso. Querer retratar mulheres, gays, trans e drags é uma questão política. Busco valorizar uma parcela da sociedade que não é minoria, mas que merece um reconhecimento maior“. Não por acaso a parceria com a Mc Xuxu (aquela mesma do “beijo pras trevestis”) tenha rendido tantas fotos incríveis e uma amizade entre os dois. Em breve, o artista pretende lançar o projeto Carão com drags de Juiz de Fora. O ensaio foi pensado e produzido logo após o atentado contra a boate Pulse, em Orlando, e pede um post especial por aqui (já vi algumas fotos e elas estão sickening!!)

Resistência

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Se eu contasse todos os retoques que pedi pra ele fazer nas fotos que tiramos, vocês acabariam reparando em tudo e isso é o que menos quero. Por sorte, ele não aceitou quase nenhum dos caprichos da minha insegurança. Não curte deixar ninguém com cara de “gente que não existe” e ainda me deu um leve puxão de orelha. “O que a gente vê nas fotos das revistas não é real. As modelos não são daquele jeito”.

Isso não significa que ele seja radical e purista a ponto de pedir que a gente apareça de cara lavada, com o cabelo do jeito que acordamos – a Alicia Keys fez isso, mas ela é ela, não?! E quem disse que também podemos?! “Até acho que ficaria lindo, mas as pessoas querem se ver da melhor forma possível quando fazem um book, por exemplo. Existem formas de valorizar a beleza natural que não distorcem a maneira como você se vê e é visto“.

Ao resistir em nos transformar em algo que não somos, Wagner fala também em emponderamento, palavra tão atual e necessária. “Todos precisam se libertar dessa necessidade de alcançar um padrão que não existe”. A aceitação torna a fotografia mais original. Valorizar todas as formas de beleza é também reafirmar os seus posicionamentos.

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“Nós nos vemos de forma diferente que o mundo nos vê. Quando você se olha no espelho ou faz uma selfie, você mostra o que enxerga. Eu quero mostrar como eu te enxergo. Somos a mistura de todas as visões”.

Afinal, como diria mama Ru (deu pra ver que adoramos o reality Ru Paul’s drag race!): “If you don’t love yourself, how in the hell are you gonna love anybody else? Can I get an Amen?”.

@WagnerEmerich

É sempre bom ficar de olho nas redes sociais do fotógrafo (bora seguir ele pra já!). Por lá, ele costuma fazer chamadas em busca de pessoas para estrelar os ensaios que produz. Foi assim, por exemplo, nas séries sobre o Carnaval e com as drags. A partir de um post, ele descobre pessoas que tenham a ver com a proposta do trabalho. Quem sabe você não pode ser o próximo ou a próxima?! A ideia é aprimorar a curadoria a partir do retorno obtido online. “Como sempre bato na tecla da inclusão, preciso garantir a diversidade e para isso participo da seleção”. Por mais que fotografar modelos seja mais fácil (elas são profissionais!), ele prefere um casting formado por pessoas reais. “É um desafio, mas tem mais verdade”.

Fotografia de verdade

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Talvez essa seja mesmo uma boa forma de definir – sem querer limitar – o trabalho do Wagner e quem ele é. A sinceridade daquela gargalhada traduz, ainda que bem pouco, a franqueza, a afetividade e a transparência que conseguimos ver e sentir no trabalho do fotógrafo.

De verdade.

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