9 de maio de 2017

Onde os celíacos podem comer?

Em casa. Apenas em casa. Somente em casa. Se você é celíaco, aposto que essa é a primeira resposta que vem na sua cabeça. Sim, só em casa nos sentimos completamente seguros. Quando sentimos, pois há casos em que até nela temos que conviver com os riscos da contaminação, especialmente se moramos com quem consome glúten.

Leia também: Como conscientizar minha família sobre a condição celíaca?

Será que estamos condenados a ficar para sempre protegidos no conforto do nosso lar?

Red Nós não podemos nos tornar pessoas reclusas. Temos que encarar as ameaças do mundo lá fora. Só assim poderemos combatê-las! Sempre defendi a ideia de que deveríamos ocupar todos os lugares e brigar para que eles possam nos atender com segurança.

O surgimento de locais especializados em comida sem glúten mostra que o mercado tem respeitado a nossa presença ou, no mínimo, visto nela uma ótima oportunidade de negócio – tema da entrevista que dei ao MGTV.

Gente como a gente

OITNB

Quase sempre, as lanchonetes e restaurantes sem glúten são geridos por pessoas que também tem alguma restrição a ele. A necessidade faz o ladrão. E é reconfortante saber que o estabelecimento foi pensado por gente como a gente. Até porque não é só porque não contém glúten que o alimento precisa ser sem graça… Quem come o que vende, não vende qualquer coisa.

Alex Vause

Uma ou outra situação foge à regra. Ainda bem! Devemos comemorar cada uma delas. Tirando o incidente do restaurante que na época dizia ser sem glúten e me vendeu um sanduíche em que um dos ingredientes tinha glúten (conto melhor aqui), tenho tido boas experiências para relatar.

E quando o restaurante não é só sem glúten?

Cozinha OITNB

Aí, meus caros, estamos por nossa conta e risco. Jogados à mercê da  sorte. Mesmo que a gente conte com a rara boa vontade dos que nos atendem – quando fazemos qualquer pergunta, quase sempre o que recebemos é um olhar de dúvida ou de desdém – numa cozinha compartilhada o ambiente nunca será 100% seguro.

O que fazer?

Falar da doença celíaca para todas as pessoas com quem cruzamos. Repetir incontáveis vezes o discurso que já decoramos. Explicar o que é o glúten, onde ele está, por que não podemos comer nem um pedacinho… e, jamais, nos acovardar.

Fugir dos riscos é estritamente necessário, afinal, a nossa saúde está em jogo. Mas sem uma dose de contestação jamais construiremos um terreno menos hostil para nós. Precisamos lutar para que a resposta à pergunta seja outra.

Laila Hallack OITNB

Onde o celíaco pode comer? No lugar que ele quiser, ora.

Sonhemos. Não custa nada.

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6 de março de 2017

Celíaca desabafa: um recado aos restaurantes

Há alguns dias, postei um vídeo no meu perfil pessoal no Facebook com um desabafo e emoções à flor da pele. Já foram mais de 8 mil visualizações. Se eu soubesse a repercussão que teria, tinha publicado na página e aproveitado para divulgar o blog, né?! Mas na hora não pensei em nada disso. Queria apenas colocar para fora o que tinha acabado de passar…

Resumindo

Restaurante Quentin Tarantino

Fui em um restaurante, teoricamente, sem glúten e sem lactose. Já tinha estado lá, conversado com o dono e ouvido da boca dele que o local era apto para celíacos, que nenhum funcionário era autorizado a entrar com alimento com glúten e blá blá blá. Eu acreditei. Desconfiada, mas acreditei.

No tal dia, voltei lá. Pensei em comer um sanduíche. Fiz o interrogatório de praxe com o rapaz que me atendeu. Questionei se cada ingrediente tinha glúten: queijo, presunto, cream cheese, tempero… se depender, até o alface entrou na lista. Sério! Não foi por falta de cuidado. O tal rapaz, atencioso, olhou no Google, checou as embalagens, fez o que estava ao seu alcance.

E eu, como sempre, disse que passaria muito mal se comesse glúten. Justifiquei a minha cisma, que aos olhos dos outros sempre soa como exagero.

Enfim, se é para resumir vamos ao final da história: já com o sanduíche dentro do estômago, vejo o moço se aproximar. Com uma tranquilidade de quem não imaginava o problemão que iria anunciar disse: “o iogurte usada para fazer o molho tem glúten, moça”.

O QUE?!?!?!

E VOCÊ ESPERA PARA ME FALAR AGORA? QUE IRRESPONSABILIDADE! O DONO TINHA FALADO QUE VOCÊS ERAM APTOS PARA CELÍACOS! NOSSA, MEU DEUS! NÃO POSSO CAIR DE CAMA NOS PRÓXIMOS DIAS, NÃO…

Não lembro ao certo o que eu disse e o que apenas pensei. As lágrimas já estavam escorrendo nos olhos. E o sangue começava a ferver. A sensação de ter sido enganada e desrespeitada veio acompanhada da triste conclusão: o mundo não foi feito para nós, nem quando parece que é.

Desnorteada, parecia que tudo o que já tinha passado até então como celíaca voltava na minha cabeça, como se eu fosse uma bacia de água e a última gota tivesse sido derramada para transbordar de uma só vez. Aí veio o vídeo, as mensagens, os comentários de todo o país e a vontade de escrever um…

RECADO AOS RESTAURANTES

1) Você e seus funcionários não são obrigados a saber o que é glúten, nem onde ele está. Certo? Errado! Já passou da hora de treinar sua equipe, de cumprir a legislação, ter uma nutricionista coordenando o seu trabalho e de responder, minimamente, às nossas dúvidas. Não custa nada. Aliás, custa dinheiro, mas te garanto que esse dinheiro vai voltar para você na hora se fizer tudo direitinho. Estamos cansados de ver uma grande interrogação estampada na cara de vocês quando fazemos qualquer pergunta e de sermos tratados como ETs. Sinto muito, mas não viemos de outro planeta.

Orange is the new black

2) Nós celíacos somos excelentes clientes. Podemos não ser maioria como vocês gostam de dizer (já ouvi isso do dono de uma padaria sem glúten!), mas somos sedentos por consumir com segurança. Na falta de opção, quem a oferece sai na frente. Muito na frente. Quando podemos ir a algum lugar, voltamos uma, duas, milhares de vezes e indicamos para Deus e o mundo. Fazemos questão de que o seu negócio seja um sucesso. Precisamos dele, entende?! E você, queira ou não, precisa da gente também… Cliente não se dispensa, ok?

3) Se o seu atendimento é ruim para nós, talvez não seja bom para ninguém… e se ele for bom para o celíaco, é um excelente atendimento para todo mundo. Eu explico: lidar com clientes com restrição alimentar não é fácil. Cumprir com todas as exigências de segurança alimentar não é moleza, mas o estabelecimento que oferece alimentos para um público como nós é capaz de atender bem qualquer pessoa.

when I can eat

4) Não divulgue, nem anuncie que vende alimentos sem glúten e sem lactose só para nadar na crista da onda. A moda passa, mas a doença celíaca não. Se você se acha esperto porque quer atender a essa demanda recente do mercado, seja mais inteligente e inclua quem sempre vai consumir o seu produto, mesmo que outra dieta passe a ocupar o status de queridinha do momento.

5) Se você tem um restaurante ou lanchonete que oferece produtos para todos os públicos e, consequentemente, com glúten, considere se diferenciar e ter uma única opção que seja para nós. Coloque no cardápio, separe um lugarzinho na cozinha, deixe algo pronto… o que for! Mas, por favor, não nos exclua sem antes tentar.

eating

Exemplo a seguir

A pizzaria Artezannale em Juiz de Fora atende celíacos. Ela pede que o cliente avise com antecedência, pois a massa e o recheio são feitos em outra cozinha e a pizza assada em outro local. Talvez não seja 100% seguro, pois vai saber onde o glúten vai parar numa pizzaria, mas o que vale, meus caros, é a consideração, o respeito e, como já disse, o entendimento de que:

Cliente é cliente, sempre

Já foi o tempo que o cliente tinha sempre razão, convenhamos, mas se tratando da saúde das pessoas, não há desculpa ou argumento capaz de me dizer que um vacilo desses dá para ser cometido. Com ela não se brinca! Que fique dado o recado.

recado dado

Respondendo quem me perguntou: foi no Filé de Alface que rolou a infeliz situação.

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