8 de dezembro de 2016

Perfil da artista: Gabi Gonçalves
Perfil Gabi Gonçalves

Foto: Gopala

Marquei de entrevistá-la em um feriado para que pudéssemos ter mais tempo. Sabia que aquele seria um encontro especial. Estava certa. Fui recebida com a mesa posta e muito afeto. Falaríamos sobre o seu trabalho na Maria Buzina, mas acabamos tendo uma conversa sobre liberdade, auto-conhecimento e amor. Amor que pude sentir entre ela e as filhas. E que elas, generosamente, ofereceram para mim. Pegamos as almofadas que estavam no sofá, sentamos no chão e, ali mesmo, dividimos a comida e os nossos pensamentos mais profundos…

Maria Buzina - Etiqueta

Só sendo muito corajosa para postar um vídeo nas redes sociais, aos prantos, contando uma situação que acabara de presenciar. Impossível não se emocionar com os relatos tão verdadeiros de Gabi Gonçalves. Mais difícil ainda é não perceber que por trás das roupas coloridas e da voz doce existe uma mulher forte. Uma artista em busca de significado para a própria vida.

Na internet

Assim como eu, Gabi enfrentou a depressão. Por mais improvável que pareça, a autora das flores de tons tão vibrantes e contornos marcantes viveu essa espécie de tristeza profunda que acomete a gente. Mas até as flores mais exuberantes passam por ciclos para que possam renascer ainda mais floridas e cheias de vida.

Maria Buzina

“Hoje sei que tudo tem o seu tempo para acontecer. Sou feliz comigo mesma e com a vida que eu tenho. Para isso, precisei me libertar das obrigações impostas pelo mundo. Não vejo sentido em viver em busca de se ter cada vez mais. Uma existência sem excessos é fundamental para a nossa felicidade. Quanto mais dinheiro e luxo buscamos, menos feliz somos”.

A exposição nas redes sociais é uma maneira de retribuir as suas recentes descobertas. “Quero que as pessoas saibam que elas não estão sozinhas. Como artista, este também é o meu propósito. Divido questionamentos. São exercícios diários que pratico comigo mesma para me tornar melhor. Se não fizermos isso, não evoluímos…”. As publicações geram um retorno surpreendente e uma identificação imediata com seguidores de diferentes partes do Brasil.

De família

A simplicidade da Gabi vem de berço. Desde pequena, ela aprendeu com os pais a apreciar os detalhes da vida, a estar perto da natureza e a evitar o consumo desenfreado. As lições que recebeu só ajudariam a construir a trajetória voltada para a arte sustentável.

Cabide Maria Buzina

A Maria Buzina foi lançada há mais de dez anos. Com vontade de ter produtos diferentes, Gabi começou a produzir bolsas de couro. Sem conhecer nenhuma técnica, no chão da casa da mãe, criava as próprias peças. Foi, então, que o acaso bateu à porta. Ou não. Ao conhecer um loneiro – profissional que faz reparos na lona para que ela dure mais tempo – decidiu testar o material.

Detalhes Maria Buzina - Laila Hallack

Quando perguntam sobre o início da Maria Buzina, ela responde com um sorriso no rosto. “A Maria Buzina começou antes do meu nascimento, com os meu avós. Tudo o que minha família construiu foi graças aos caminhoneiros. Eles enfrentam tanta discriminação, tantas lutas, mas ao percorrer o país vivem situações riquíssimas”.

Talvez ela estivesse mesmo destinada a contar essas histórias…

Maria Buzina - Estampas

A lona é lavada à mão, o que exige um esforço imenso. Apesar da limpeza, as marcas permanecem e fazem do material o diferencial dos acessórios Maria Buzina. “Essas marcas são como cicatrizes. Elas contam a nossa história”. Com o toque da Gabi, a matéria-prima dura, simples e rústica, como a vida de quem vive nas estradas, ganha mais cor e leveza.

As bolsas também carregam um conceito, que reflete as origens e os propósitos da artista. “Minha intenção é gerar um novo olhar para o trabalho do caminhoneiro. Quando alguém adquire uma Maria Buzina, a bolsa passa a contar a história dessa pessoa. Agora ela é quem vai deixar marcas…”.

Sem modismo

Ao fugir da estética industrial, Gabi acabou criando uma identidade alternativa, um estilo meio hippie, embora dispense qualquer tipo de rótulo.

Maria Buzina - Bolsa Arte

Formada em Artes, pós graduada em Arte e Moda, a artista jamais teve a intenção de lançar moda e, muito menos, seguir tendências, mesmo com as pessoas esperando que fizesse isso. “Eu nunca criei coleção. A proposta é ser sempre diferente, porque todos somos diferentes”.

Apesar de questionar as imposições do setor, a Maria Buzina cresceu e ficou conhecida. Os acessórios feitos pela Gabi já foram vendidos para grandes marcas e exportados para diferentes países. Hoje, ela prefere se dedicar a feiras, eventos e a encomendas – a próxima é o Bazaar Manufato, de 20 a 22 de dezembro, no Espaço Manufato (estarei lá, claro!).

Maria Buzina - Arte em lona

E por que Maria Buzina?! Sim, tem gente que acha que o nome da marca tem relação com o tal “Maria Gasolina”. A Gabi já chegou a receber cantadas de homens que levaram para esse lado… Mas, não! A ideia é relembrar a volta do caminhoneiro para casa após uma longa viagem. O barulho da buzina é recebido com festa pela família que o aguarda. E o Maria? É porque soa mais divertido assim…

Amor de mãe

Laila Hallack - Gabi e filhas

Um dos muitos registros da tarde delícia que passamos juntas…

Durante a entrevista, fomos interrompidas diversas vezes pelas meninas. Observei que a mais nova fazia isso quando Gabi estava prestes a se emocionar. Era como se protegesse a mãe.

Elas riam o tempo todo. Brincavam entre si, trocavam olhares e demonstravam uma cumplicidade difícil de se ver. Ter presenciado a sintonia entre as três me fez entender melhor a importância que ela dá para a educação das filhas.

“Eu acredito que só vamos conseguir mudar o mundo educando pessoas para que sejam melhores, para que sejam mais participativas e conscientes”.

Enquanto estávamos ali, Manu desenhava. Helena dizia que quer ser estilista. Perguntei sobre a vocação delas e se iriam seguir os mesmos passos da mãe. Gabi desconversou da melhor maneira. Não quer obrigá-las a nada, mas incentiva para que se expressem como quiserem. “A arte é importante para todas as pessoas, não importa o que fazem profissionalmente. Ela nos faz ter um olhar mais humano. A arte nos faz acreditar“.

Gabi Gonçalves e filhas

Livres como os artistas. Assim ela quer que as filhas sejam. Assim ela, lindamente, é. “O artista se permite. É o que tento ensiná-las. Precisamos ter liberdade para sermos quem realmente somos“, encerrou, pronunciando exatamente as palavras que eu precisava ouvir.

 

Fotos: Acervo pessoal da artista, Vinícius Gonçalves (Espaço Manufato) e eu.

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23 de agosto de 2016

Perfil do artista: Wagner Emerich

IMG_8042 (1)Com uma gargalhada alta, dessas que preenchem o ambiente e nos fazem rir junto, Wagner terminava quase todas as respostas durante a entrevista, até quando o papo ficava mais sério. Não chegou a ser bem uma entrevista. Não teria como. Conheço o Wagner desde o terceiro ano do ensino médio. Fizemos cursinho juntos e fomos da mesma turma na faculdade. Em mais de dez anos, vi ele se transformar em um artista autêntico e engajado. Em um fotógrafo respeitado. Sou suspeita para falar (ele é quem fez as minhas fotos para a página!). Uma pena não conseguir reproduzir em palavras, mas todo mundo deveria ter a chance de ouvir aquela risada… e conhecer um pouco do que ele faz e pensa!

Como tudo começou

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Wagner até poderia ter começado posando para fotos – vejam só esse sorrisinho! Com charisma, uniqueness, nerve and talent, jamais estaria no bottom two e teria que lipsynch for his life (se não entendeu, clica aqui!). Mas ao contrário do que a gente imagina, ele não gosta tanto dos flashes, não.

Durante as aulas de fotografia na faculdade, já se dava bem. Só não imaginava que um dia trabalharia com isso. Depois de formado, fez Pós-Graduação em Cinema, TV e Mídias Digitais, pensando em comprar uma câmera para fazer filmes. O equipamento foi o pontapé para a carreira de fotógrafo.

Os primeiros passos foram dados em eventos – ele é aquele fotógrafo que você grita pedindo prara tirar foto no meio da balada – e as amigas, as primeiras modelos. “Quando começa a carreira, todo fotógrafo pega uma amiga bonita, leva para o trilho de trem e fotografa. É clássica! Graças a Deus, fugi disso”, se diverte.

Fotografar é também contar histórias

O gosto por uma boa conversa e a vocação para o jornalismo acabaram levando-o a se dedicar aos retratos. “A partir do momento que interajo com o outro, construímos a foto juntos. A imagem reflete a história dela, a minha e essa relação entre nós”. Diferente do fotojornalista que precisa cobrir as pautas das notícias, ele é quem define os assuntos que quer abordar. Em seus trabalhos autorais, retrata não só uma pessoa, mas toda uma comunidade que ela representa. “São personagens marginalizados, fora do mainstream. Contribuo com a sociedade dando voz a quem nem sempre é visto ou ouvido”.

Wagner é auto-didata. Tirando as aulas de fotografia na faculdade, aprendeu praticamente tudo que sabe sozinho, assistindo tutoriais na internet e experimentando. Nos vídeos, cansou de ouvir fotógrafos renomados dizendo o que ou não fazer, até perceber que não era bem assim. O conhecimento da técnica existe para alcançar os resultados estéticos esperados, mas nunca para limitar a criação. “Não há certo ou errado. A liberdade é total”.

Por isso, a fotografia é uma forma de arte em que o olhar do artista sempre prevalece e transparece nas imagens. “É o meu modo de ver o mundo. A fotografia pode ser abstrata, minimalista, de paisagem, o que for. Eu escolhi fotografar pessoas porque esta é a forma que consigo melhor me expressar”.

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Apesar disso, como todo artista, Wagner tem suas referências. Fotógrafos que, de certa forma, acabaram inspirando sua forma de trabalhar. Mario Testino, com sua pegada natural, mais espontânea e ousada. O carioca Jorge Bispo com seus “retratos sem disfarces”, como foi definido. Nem um pouco ligado ao universo high fashion, como jornalista Wagner prioriza a verdade: “Pessoas reais pedem poses reais”.

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Em seu trabalho, o cara alegre e brincalhão, também dá lugar a uma face pouco conhecida dele. “Uma vez fiz uma série de fotografias de imóveis tombados em estado de destruição. O material ficou tão triste e melancólico, completamente diferente de como as pessoas me enxergam”. E, assim, Wagner também se surpreende e aprende sobre si mesmo com o que capta pelas lentes.

Folia em branco e preto

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Nos retratos do fotógrafo, a ausência de cores jamais significa menos expressividade. Pelo contrário. “A cor pode desviar o olhar. O foco está completamente no retratado e em sua expressão”. Ao unir seu lado festivo a essa preferência estética, surgiu o trabalho mais conhecido dele, que repercutiu em páginas de grandes jornais e sites especializados como O Globo e Hypeness. A série Folia em branco e preto, criada em 2015, inicialmente retratou pessoas fantasiadas no clima da festa considerada a mais colorida. No ano seguinte, a convite do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas para repetir a exposição, Wagner decidiu que crianças seriam as estrelas da mostra. Para a próxima, já imagina a terceira idade. É esperar para ver!

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Olhar politizado

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“Todo fazer artístico tem um discurso. Nossas escolhas não são por acaso. Querer retratar mulheres, gays, trans e drags é uma questão política. Busco valorizar uma parcela da sociedade que não é minoria, mas que merece um reconhecimento maior“. Não por acaso a parceria com a Mc Xuxu (aquela mesma do “beijo pras trevestis”) tenha rendido tantas fotos incríveis e uma amizade entre os dois. Em breve, o artista pretende lançar o projeto Carão com drags de Juiz de Fora. O ensaio foi pensado e produzido logo após o atentado contra a boate Pulse, em Orlando, e pede um post especial por aqui (já vi algumas fotos e elas estão sickening!!)

Resistência

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Se eu contasse todos os retoques que pedi pra ele fazer nas fotos que tiramos, vocês acabariam reparando em tudo e isso é o que menos quero. Por sorte, ele não aceitou quase nenhum dos caprichos da minha insegurança. Não curte deixar ninguém com cara de “gente que não existe” e ainda me deu um leve puxão de orelha. “O que a gente vê nas fotos das revistas não é real. As modelos não são daquele jeito”.

Isso não significa que ele seja radical e purista a ponto de pedir que a gente apareça de cara lavada, com o cabelo do jeito que acordamos – a Alicia Keys fez isso, mas ela é ela, não?! E quem disse que também podemos?! “Até acho que ficaria lindo, mas as pessoas querem se ver da melhor forma possível quando fazem um book, por exemplo. Existem formas de valorizar a beleza natural que não distorcem a maneira como você se vê e é visto“.

Ao resistir em nos transformar em algo que não somos, Wagner fala também em emponderamento, palavra tão atual e necessária. “Todos precisam se libertar dessa necessidade de alcançar um padrão que não existe”. A aceitação torna a fotografia mais original. Valorizar todas as formas de beleza é também reafirmar os seus posicionamentos.

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“Nós nos vemos de forma diferente que o mundo nos vê. Quando você se olha no espelho ou faz uma selfie, você mostra o que enxerga. Eu quero mostrar como eu te enxergo. Somos a mistura de todas as visões”.

Afinal, como diria mama Ru (deu pra ver que adoramos o reality Ru Paul’s drag race!): “If you don’t love yourself, how in the hell are you gonna love anybody else? Can I get an Amen?”.

@WagnerEmerich

É sempre bom ficar de olho nas redes sociais do fotógrafo (bora seguir ele pra já!). Por lá, ele costuma fazer chamadas em busca de pessoas para estrelar os ensaios que produz. Foi assim, por exemplo, nas séries sobre o Carnaval e com as drags. A partir de um post, ele descobre pessoas que tenham a ver com a proposta do trabalho. Quem sabe você não pode ser o próximo ou a próxima?! A ideia é aprimorar a curadoria a partir do retorno obtido online. “Como sempre bato na tecla da inclusão, preciso garantir a diversidade e para isso participo da seleção”. Por mais que fotografar modelos seja mais fácil (elas são profissionais!), ele prefere um casting formado por pessoas reais. “É um desafio, mas tem mais verdade”.

Fotografia de verdade

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Talvez essa seja mesmo uma boa forma de definir – sem querer limitar – o trabalho do Wagner e quem ele é. A sinceridade daquela gargalhada traduz, ainda que bem pouco, a franqueza, a afetividade e a transparência que conseguimos ver e sentir no trabalho do fotógrafo.

De verdade.

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