6 de março de 2017

Celíaca desabafa: um recado aos restaurantes

Há alguns dias, postei um vídeo no meu perfil pessoal no Facebook com um desabafo e emoções à flor da pele. Já foram mais de 8 mil visualizações. Se eu soubesse a repercussão que teria, tinha publicado na página e aproveitado para divulgar o blog, né?! Mas na hora não pensei em nada disso. Queria apenas colocar para fora o que tinha acabado de passar…

Resumindo

Restaurante Quentin Tarantino

Fui em um restaurante, teoricamente, sem glúten e sem lactose. Já tinha estado lá, conversado com o dono e ouvido da boca dele que o local era apto para celíacos, que nenhum funcionário era autorizado a entrar com alimento com glúten e blá blá blá. Eu acreditei. Desconfiada, mas acreditei.

No tal dia, voltei lá. Pensei em comer um sanduíche. Fiz o interrogatório de praxe com o rapaz que me atendeu. Questionei se cada ingrediente tinha glúten: queijo, presunto, cream cheese, tempero… se depender, até o alface entrou na lista. Sério! Não foi por falta de cuidado. O tal rapaz, atencioso, olhou no Google, checou as embalagens, fez o que estava ao seu alcance.

E eu, como sempre, disse que passaria muito mal se comesse glúten. Justifiquei a minha cisma, que aos olhos dos outros sempre soa como exagero.

Enfim, se é para resumir vamos ao final da história: já com o sanduíche dentro do estômago, vejo o moço se aproximar. Com uma tranquilidade de quem não imaginava o problemão que iria anunciar disse: “o iogurte usada para fazer o molho tem glúten, moça”.

O QUE?!?!?!

E VOCÊ ESPERA PARA ME FALAR AGORA? QUE IRRESPONSABILIDADE! O DONO TINHA FALADO QUE VOCÊS ERAM APTOS PARA CELÍACOS! NOSSA, MEU DEUS! NÃO POSSO CAIR DE CAMA NOS PRÓXIMOS DIAS, NÃO…

Não lembro ao certo o que eu disse e o que apenas pensei. As lágrimas já estavam escorrendo nos olhos. E o sangue começava a ferver. A sensação de ter sido enganada e desrespeitada veio acompanhada da triste conclusão: o mundo não foi feito para nós, nem quando parece que é.

Desnorteada, parecia que tudo o que já tinha passado até então como celíaca voltava na minha cabeça, como se eu fosse uma bacia de água e a última gota tivesse sido derramada para transbordar de uma só vez. Aí veio o vídeo, as mensagens, os comentários de todo o país e a vontade de escrever um…

RECADO AOS RESTAURANTES

1) Você e seus funcionários não são obrigados a saber o que é glúten, nem onde ele está. Certo? Errado! Já passou da hora de treinar sua equipe, de cumprir a legislação, ter uma nutricionista coordenando o seu trabalho e de responder, minimamente, às nossas dúvidas. Não custa nada. Aliás, custa dinheiro, mas te garanto que esse dinheiro vai voltar para você na hora se fizer tudo direitinho. Estamos cansados de ver uma grande interrogação estampada na cara de vocês quando fazemos qualquer pergunta e de sermos tratados como ETs. Sinto muito, mas não viemos de outro planeta.

Orange is the new black

2) Nós celíacos somos excelentes clientes. Podemos não ser maioria como vocês gostam de dizer (já ouvi isso do dono de uma padaria sem glúten!), mas somos sedentos por consumir com segurança. Na falta de opção, quem a oferece sai na frente. Muito na frente. Quando podemos ir a algum lugar, voltamos uma, duas, milhares de vezes e indicamos para Deus e o mundo. Fazemos questão de que o seu negócio seja um sucesso. Precisamos dele, entende?! E você, queira ou não, precisa da gente também… Cliente não se dispensa, ok?

3) Se o seu atendimento é ruim para nós, talvez não seja bom para ninguém… e se ele for bom para o celíaco, é um excelente atendimento para todo mundo. Eu explico: lidar com clientes com restrição alimentar não é fácil. Cumprir com todas as exigências de segurança alimentar não é moleza, mas o estabelecimento que oferece alimentos para um público como nós é capaz de atender bem qualquer pessoa.

when I can eat

4) Não divulgue, nem anuncie que vende alimentos sem glúten e sem lactose só para nadar na crista da onda. A moda passa, mas a doença celíaca não. Se você se acha esperto porque quer atender a essa demanda recente do mercado, seja mais inteligente e inclua quem sempre vai consumir o seu produto, mesmo que outra dieta passe a ocupar o status de queridinha do momento.

5) Se você tem um restaurante ou lanchonete que oferece produtos para todos os públicos e, consequentemente, com glúten, considere se diferenciar e ter uma única opção que seja para nós. Coloque no cardápio, separe um lugarzinho na cozinha, deixe algo pronto… o que for! Mas, por favor, não nos exclua sem antes tentar.

eating

Exemplo a seguir

A pizzaria Artezannale em Juiz de Fora atende celíacos. Ela pede que o cliente avise com antecedência, pois a massa e o recheio são feitos em outra cozinha e a pizza assada em outro local. Talvez não seja 100% seguro, pois vai saber onde o glúten vai parar numa pizzaria, mas o que vale, meus caros, é a consideração, o respeito e, como já disse, o entendimento de que:

Cliente é cliente, sempre

Já foi o tempo que o cliente tinha sempre razão, convenhamos, mas se tratando da saúde das pessoas, não há desculpa ou argumento capaz de me dizer que um vacilo desses dá para ser cometido. Com ela não se brinca! Que fique dado o recado.

recado dado

Respondendo quem me perguntou: foi no Filé de Alface que rolou a infeliz situação.

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12 de janeiro de 2017

Alimentação inclusiva: o que é?

Pergunte para qualquer pessoa: qual o lugar da sua casa onde você passa mais tempo, em especial com a família? Se a resposta não for a cozinha, no máximo será a sala de jantar. É fato. A cozinha é o coração da casa. É em torno dela que nos reunimos não só para comer, mas para apreciar a companhia das pessoas com quem convivemos.

Fora de casa, a lógica é a mesma.

Para onde vamos quando queremos interagir socialmente? Para bares e restaurantes, geralmente em volta de uma mesa regada de bebidas e comidas. Comemos para saciar a nossa fome ou nos nutrir, mas também para saborear sensações. E nem sempre elas nos são servidas…

Por que falar de alimentação inclusiva?

Considerando a relação cultural que temos com a alimentação, dá para imaginar como é a vida de alguém com alguma restrição alimentar?!

Não poder comer nada em um aniversário, em uma confraternização do trabalho ou em uma festinha da escola é ter o acesso a essas experiências negado. Não ter o direito de vivenciar integralmente tais momentos é, sim, uma forma de exclusão – a chamada exclusão alimentar.

Alimentação Inclusiva - Celíaca

Como eu me sinto quando chego em algum lugar e vejo que tem opções sem glúten seguras e saborosas para mim…

Se para adultos o desconforto já é tão grande (falo por mim após 5 anos do diagnóstico da doença celíaca), pensem no trauma de uma criança obrigada a passar por isso? É como se não participássemos efetivamente da vida em comunidade como todos participam. Ainda que levemos a nossa própria comida, não é a mesma coisa. Não tem como ser.

Ambientes e situações que antes eram sinônimo de bem-estar, diversão e alegria, passam a nos causar tensão e infelicidade. Não deveríamos exigir do outro tamanha compreensão? É querer atenção demais? É exagero esperar que entendam e atendam às nossas necessidades? “É assim e pronto, você tem que aprender a conviver com isso”, alguns podem dizer ou, se forem mais educados, apenas pensar. “Deixa de besteira, aproveita só hoje e come um pouco”, podem sugerir aqueles que não imaginam o que passaremos depois.

Mas será que não tem mesmo jeito?

Será que o destino de quem tem restrição alimentar é a exclusão alimentar?

Ir na casa de uma amiga e ver que ela carinhosamente preparou ou comprou algo para você … Chegar em um restaurante e não precisar revirar o cardápio e, logo em seguida, interrogar o garçom, o chefe, o proprietário e o papagaio dele para, depois disso tudo, ainda ter que ficar só na água… Não precisar recorrer ao seu kit sobrevivência na bolsa durante um casamento.

Tudo isso pode parecer ideal e até irreal, mas já aconteceu comigo em raras e deliciosas exceções.

Oferecer opções que atendam quem tem alguma restrição alimentar não é favor. É demonstrar, no mínimo, respeito ao outro.

Se negar a acolher quem quer que seja, pelo contrário, é de uma indelicadeza sem tamanho. Mesmo quando o hábito alimentar se diferencia por uma escolha – os veganos estão aí para nos mostrar isso – não devemos esperar uma atitude diferente da aceitação. E só nos sentimos aceitos quando podemos desfrutar verdadeiramente desses saborosos momentos.

Com a maior preocupação com a saúde e o aumento considerável dos diagnósticos das alergias alimentares ou distúrbios relacionados a ela, já passou da hora de rever o comportamento excludente, não?!

Bolo Aniversário Sem Glúten

Bolo de aniversário delicioso feito pela minha mãe para mim. Todos os convidados amaram. Isso é inclusão alimentar… e amor!

A mudança começa em casa, mas não pode se restringir a ela (basta de restrições!!!!). Precisamos, inclusive, reconhecer a responsabilidade de todos no combate à este tipo de exclusão. Até o Estado tem sua parcela de culpa quando falamos em saúde pública e educação, mas esse papo fica para depois.

E qual a receita da inclusão alimentar?

Uma pitada de informação, boas doses de boa vontade e amor a gosto (de preferência sem miséria!).

Pela saúde da nossa vida social, vamos botar a mão na massa… sem glúten, sem lactose, sem derivados do leite e por aí vai!

Para mim, o termo é novo, embora o conceito por trás dele faça sentido para qualquer pessoa que lida com a restrição alimentar. Prometo pesquisar mais e compartilhar conteúdos bacanas sobre o tema. E se você tem alguma sugestão pro blog, deixe nos comentários!

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