5 de abril de 2017

A romantização da ansiedade

Observe na sua rede de amigos. Nos últimos tempos, quantos já compartilharam algum vídeo, arte ou texto sobre a ansiedade? Quantos se abriram honestamente sobre ela? Não é preciso ir muito longe para perceber que, do seu lado, pode ter alguém enfrentando o transtorno do momento.

Quando posto qualquer coisa sobre a ansiedade recebo muitas mensagens, inclusive de pessoas que jamais imaginaria – mais uma prova de que a vida que compartilhamos virtualmente é apenas uma fração superficial de quem somos. Nas camadas mais profundas, há sempre uma versão bem mais complicada de nós mesmos.

Justin Mays

Das recentes descobertas do Pinterest: arte psicodélica de Justin Mays.

Estamos todos ansiosos? Não necessariamente, mas estamos falando mais sobre ela. Ainda bem.

Deixar de esconder a nossa ansiedade não significa que temos orgulho dela.

É bom deixar claro. Ninguém acha bonito desmarcar compromissos importantes por não conseguir sair da cama (não confundam com preguiça, pelo amor de Deus!), nem postergar planos importantes por simplesmente perder todas as forças numa batalha interna consigo mesmo. Não é cool tomar remédio para dormir, nem se entupir de substâncias que tentam nos deixar felizes, mas no fundo só nos afastam da raíz dos nossos problemas. Sem o cuidado adequado, os remédios só servem para tapar o sol com a peneira. Clichê, eu sei, mas não há expressão mais adequada.

Ilustração Prozac

Não nos orgulhamos por sofrer descomunalmente por motivos que, aos olhos dos outros, soam tão banais. Não gostamos de viver nessa constante aflição e de nos dividir, o tempo todo, entre controlar a nossa mente ou tentar ignorar o que se passa nela. Não tem nada de descolado em sentir em cada pedaço do corpo, do coração e da alma uma dor crônica, irracional e fulminante. Nos privar, não comparecer, disfarçar, mentir, fingir, relevar, ignorar, nos desculpar… Vocês ainda acham que fazemos tudo isso porque queremos?

Falar mais sobre a ansiedade não significa que devemos romantizá-la.

A chance disso acontecer é bem menor do que o risco de agonizar cada sintoma em absoluto silêncio. Mas ela existe. Filósofos, escritores, pintores, atores e músicos que sofriam de algum transtorno psíquico podem nos levar a pensar que há um certo glamour nisso. Ou que, apesar dos pesares, devemos ser tão especiais como eles.

Blog - Justin Mays

Infelizmente, os livros, os filmes e as canções só mostram o lado sedutor da ansiedade. A melancolia tem o seu charme, não?! A fragilidade e a loucura também. De Woody Allen a Van Gogh. Até John Mayer e Darwin (isso mesmo!). A lista é grande. Em poucos cliques o Google te apresenta uma série de nomes.

O que ninguém nos conta é o quanto cada uma das personalidades penou tendo que suportar as chamadas “doenças da alma”.

Você pode até criar mais quando está numa bad, mas ainda assim tenho certeza que preferia levar uma vida normal a produzir obras memoráveis nas noites que passa em claro. A arte nos salva, mas não precisamos estar no fundo do poço para que isso aconteça. Ninguém deveria cultivar a ansiedade. Ansiedade não dá frutos. Quando dá, eles são amargos e intragáveis. O verdadeiro ansioso não vê poesia nos fantasmas que o acompanham diariamente.

Romantizar a ansiedade é um erro tão comum quanto banalizá-la.

Justin Mays - Laila Hallack

De repente, todo mundo tem ansiedade. Será mesmo?! Diferenciar a ansiedade corriqueira do transtorno é o primeiro passo. Procurar um diagnóstico e um tratamento adequado, o segundo. E a internet não é o melhor lugar para se fazer isso.

Expor a nossa ferida é também uma forma de curá-la. Do contrário, estaríamos apenas cutucando um machucado que já dói. Como dói!

A partir do momento que assumimos o que passamos, precisamos ter consciência da nossa responsabilidade. Nada nem ninguém será capaz de nos salvar senão nós mesmos. 

 

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17 de fevereiro de 2017

Ansiedade: bipolar é você!

Montanha russa

Se fosse para definir os dias de um ansioso eu não pensaria duas vezes antes de dizer: é uma verdadeira montanha-russa. Não uma qualquer, mas a mais radical, a mais alta, a mais veloz, com mais curvas e loopings.

Diferente da vida de qualquer pessoa, com naturais altos e baixos, a nossa oscila de uma forma que nos consome completamente.

Collage property of Felipe Posada / The Invisible Realm

Num dia, estamos bem e aparentemente todas as causas da nossa ansiedade resolvem nos dar uma trégua. Nos sentimos estranhamente animados, queremos planejar, produzimos como nunca e sorrimos como se algo fenomenal tivesse nos ocorrido. A calmaria de um ansioso não tem nada de calma. Ela nos deixa em êxtase! Somos tomados por uma alegria repentina. Respiramos melhor, comemos melhor, pensamos melhor, dormimos melhor… até que, sem perceber, gastamos toda a nossa energia.

Vida de ansioso - Laila Hallack

No dia seguinte, mal conseguimos levantar. Aquela vontade de fazer acontecer é substituída por todas as incertezas possíveis. Questionamos tudo. Até o que não é passível de nenhum questionamento. Os planos que foram feitos no dia anterior? Ah, deixa para lá. Não sabemos onde estávamos com a cabeça! Aquela ligação nos atormenta. Desmarcamos os compromissos. As obrigações importantes e as conversas banais: tudo parece tão mais complicado.

Às vezes, sentimos todas essas sensações em um único dia. E não é só variação de humor, não. Antes fosse. Somos tão inconstantes quanto as coisas do mundo dos versos de Gregório de Matos.

Nasce o Sol e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas e alegria.
Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no Sol, e na Luz falta a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se a tristeza,
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza.
A firmeza somente na inconstância.

Já cansei de ouvir: “o que foi?”, sem saber o que dizer. “Não sei” nunca é uma boa resposta. É difícil disfarçar. Dizem que minha feição até muda. Estou pulando – literalmente – de um lado para o outro quando, sem mais nem menos, paro, olho para o nada e… sei lá, já não quero mais pular, não. Como se o raro instante de leveza fosse substituído de rompante por uma espécie de tensão e desconforto.

Ser ansioso

As pessoas em nossa volta não entendem. Até ontem – ou até agora mesmo – estava tudo bem. Pior que estava! Nem nós entendemos.

Começamos até pensar que nos deram o diagnóstico errado. Será que não somos bipolar?

Ao me deparar com essa inusitada suspeita, me pego rindo novamente. De mim mesma, claro. E finalmente entendo: bipolar mesmo é essa tal de ansiedade!

 

Ansiosos e ansiosas que sempre pedem mais posts sobre o tema: no próximo vou falar quando a ansiedade é e quando não é mimimi! Alguma experiência pra compartilhar!?

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